Robert Mulligan tinha um talento
inegável com crianças e adolescentes. Seus dois maiores filmes tratam
exatamente da realidade sendo vista através delas, tanto em O sol é para todos
como em Verão de 42 (por muito tempo conhecido como Houve uma vez um verão, no
Brasil). Enquanto no filme com Gregory Peck (no papel que o imortalizou)
acompanhávamos a realidade racial sulista pela ótica de duas crianças brancas,
em Verão de 42 vemos a lembrança emotiva de um garoto na adolescência, e do
efeito que uma mulher em especial teve sobre ele, neste ano em que os EUA já
estavam em guerra e o marido dela estava distante. Em O sol é para todos,
Mulligan pôde trabalhar em cima de um material de primeira categoria, no caso o
livro de Harper Lee. Neste filme aqui a base não era literária, o que ele
contava inicialmente era com as memórias do roteirista Herman Raucher, tanto
que o livro foi inclusive escrito após as filmagens, de tanta confiança que se
tinha que o filme daria certo, e consequentemente um livro sobre a história
dele também daria (crença justificada, nos dois casos). Este é um caso clássico
em que o roteirista é, no mínimo, tão co-autor como o diretor.
O filme é muito autobiográfico, a
ponto de sequer mudar o nome das pessoas reais. Hermie (Gary Grimes) é o
escritor em 1942, um adolescente normal, de seus 15 anos, que passa este verão numa
ilha junto com dois amigos, Oscy (Jerry Houser) e Benjie (Oliver Connant). Verão
de 42 é especial, dentre muitas coisas, por mostrar o que era ser adolescente nesta
época, ilustrando alguns pequenos detalhes daquele cotidiano que um adolescente
de hoje em dia teria dificuldades de imaginar. Os três ficam soltos na ilha
(sequer vemos os seus pais, quando muito apenas ouvimos suas vozes), sem grandes entretenimentos, passando um bom tempo na horrenda praia inventando o
que fazer para se distrair. Inevitavelmente, já estavam na fase de pensar em
mulheres, e o desconhecimento de praticamente qualquer coisa sobre sexo os
atormenta. Devoram o único livro que encontram sobre o assunto, e tentam ao
máximo se chegar em meninas da sua idade, com a exceção de Benjie, um pouco
mais novo e que sente mais medo que desejo das meninas (o que rende uma
hilariante cena numa fila de cinema, onde inclusive eles “assistem” A estranha
passageira, com Bette Davis e Paul Henreid). Tudo muito normal e fascinante de
se ver, como uma volta ao tempo mesmo. De fato, Verão de 42 é um filme
nostálgico como poucos, ainda mais capturado pela fotografia onírica e enevoada
de Robert Surtees, que evoca ainda mais as lembranças emotivas de Herman Raucher.
Mas há algo que apimenta tudo, que sai da normalidade e causa um fascínio inesquecível
em Hermie, a ponto de fazê-lo escrever um roteiro 29 anos depois sobre aquele
decisivo verão. Havia ela, naquela afastada casa.
Jennifer O’Neill. Ou Dorothy, se
preferir. No papel em que é disparado mais lembrada, Jennifer O’Neill incorpora
a mulher mais velha, de seus vinte e
poucos anos, casada, mas cujo marido estava servindo ao país na Guerra. Ela,
com sua simples presença distante, praticamente enlouquece o pobre Herman em
sua beleza, charme e simplicidade (e o espectador também não sai ileso dessa).
Não que ela o seduza. Ela apenas o trata bem, com um certo afeto, mas não com o
intuito de mexer com ele. Mas mexe. Confunde ele todo porque qualquer coisa que
faça encanta o rapaz. Para Hermie, carregar suas compras é o paraíso, tomar seu
café pelando supera qualquer noite de alta classe em Montecarlo. Ele faz de
tudo para parecer adulto perto dela, treinando frases prontas e até mesmo
fingindo que não conhece seus amigos quando ambos passam ao lado deles na rua,
para não parecer imaturo. Algo inútil, claro, pois a distância de idade entre
eles, se não é tão grande assim (menos de dez anos de diferença, talvez menos),
nesta fase da vida costuma ser definitiva, quase intransponível. Mas sonhar não
custa nada, e Hermie é claramente um sonhador, um especialista no assunto. Ele
tudo repara nela, menos que é humana, que também tem seus medos, anseios e carências,
e que sente a solidão e o tédio daquela ilha assim como ele. Poderia o jovem
Hermie ver isso?
Herman Raucher, ao começar a
escrever suas memórias no roteiro, inicialmente pensava mais em seu amigo Oscy,
queria contar como fora a amizade deles (até como um tributo ao amigo que morrera
no exato dia de aniversário de 24 anos do escritor, o que o fizera nunca mais
comemorar um aniversário na vida). O filme tem essa estranha particularidade de
realçar, ao menos quanto ao tempo em cena, muito mais a amizade deles do que
toda a questão do fascínio de Herman por Dorothy. Mas não teve jeito, Dorothy
cobrou sua força no inconsciente do roteirista, e consequentemente no roteiro e
no filme. Jennifer O’Neill, objetivamente, atua apenas por doze minutos em
Verão de 42. Mas são doze minutos de ouro, que envolvem todo o filme e,
claramente, o próprio autor. Besteira tentar relegar Dorothy a um segundo
plano. Ninguém fica imune a uma mulher como Dorothy/Jennifer, nem um garoto
impressionável, com os hormônios em ebulição, nem um espectador dos anos
setenta ou do Século XXI. Quando o filme termina, é dela que nos lembramos.
Dela e da belíssima trilha do filme, vencedora do único Oscar que o filme
levou, daqueles incontestáveis. Michel Legrand é, se não um co-autor, então uma
espécie de Dorothy musical do filme. Impossível pensar em Verão de 42 sem lembrar
dos simples e tocantes acordes de sua música. No tom perfeito, ela traz um
sentido de saudade e nostalgia que poucas trilhas conseguem atingir.
Os atores infantis atuam
razoavelmente bem, e seguram o filme quando Jennifer O’Neill não está presente.
Os três estralariam uma esquecidíssima sequência, chamada O verão que passou
(Class of ’44), que acompanha os três personagens já no colégio e às voltas com
a guerra (numa versão mais fantasiosa da vida real). Mas era um filme fadado ao
fracasso, sem as presenças de Robert Mulligan, Michel Legrand e, principalmente,
Jennifer O’Neill. Pode-se dizer que os três atores-mirins seguiram para o anonimato após
Verão de 42. Aliás, o filme marcou um certo ápice na carreira de todos os
envolvidos, na verdade, inclusive Jennifer O’Neill, que nunca mais repetiu este
verão em outras temporadas. E quanto a Herman Raucher, este até recebeu uma
carta da verdadeira Dorothy, logo após o filme ser exibido nos cinemas, com
grande sucesso. Mas foi um contato efêmero (nunca mais escreveu para ele), de uma mulher que já era avó, e que
só queria saber se ele estava bem. Ele estava bem
sim, Dorothy. Só nunca conseguiu esquecer de você, assim como ninguém se
esquece de Jennifer O’Neill após assistir ao belíssimo Verão de 42. É um
fascínio eterno.
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