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domingo, 10 de março de 2013

Loucamente apaixonados (Like crazy - 2011)




2011 foi um ano “like crazy”, meio louco no Cinema americano, quase como o título original deste filme de Drake Doremus (diretor também de Douchebag, de 2010). Foi um ano de um filme mudo, em preto e branco, francês, com atores e diretor franceses desconhecidos nos EUA, que passou o rodo nas principais premiações americanas (dentre elas o Oscar), como foi o caso de O artista. E foi também o ano de Loucamente apaixonados, um romance leve mas contundente, de uma inglesa e um americano de alto nível social, que conquistou o público mais intelectualizado do Festival de Sundance, levando o principal prêmio. O gênero de comédia romântica, bem ou mal, se sustenta bem e continua sendo popular (muito mais com o público do que com a crítica, que costuma apedrejar o gênero, apesar desta cultivar exceções como O lado bom da vida). Mas o Romance em si, puro, que se recusa a se escorar na comédia, como Love story ou Em algum lugar do passado, por exemplo, é um gênero em desuso, quase como o Western e o Musical. Aparece um ou outro aqui ou ali, mas não há muita continuidade, quase como se não fossem mais contemporâneos, como se fossem dissonantes deste milênio mais cínico. Quando aparece um bom exemplar deste tão combalido gênero, e Loucamente apaixonados com certeza é um deles, o público, principalmente o feminino, porém, costuma apreciá-lo muito.

Mas Loucamente apaixonados, por ser uma obra modesta, filmada em menos de um mês e com baixíssimo orçamento (apenas 250.000 dólares), não teve muita chance de alcançar muito o público, principalmente fora dos EUA, e o fato de ser um filme de clima mais sereno e de procurar evitar os clichês de filmes românticos tornou esta tarefa ainda mais difícil. A sua gestação foi totalmente pessoal, calcada nas relações de Drake Doremus e do coroteirista Ben York Jones (que foi ator de Douchebag e que é amigo de infância do diretor, e inclusive roteirizou um filme dirigido por Doremus quando ambos ainda eram adolescentes). Principalmente no que tange à relação do diretor com Desiree Pappenscheller, uma austríaca que fora ex-namorada dele e que também passara por problemas com visto nos EUA (na verdade, ainda mais sérios do que os retratados no filme). Aliás, se há alguma lição prática de Loucamente apaixonados, é que não se pode deixar o visto americano de estudante expirar quando ainda se está no país. A personagem Anna, interpretada por Felicity Jones (A tempestade, Chéri) vacila nesta questão após concluir sua faculdade, justamente por não querer se afastar, durante o verão seguinte, de Jacob (Anton Yelchin, de Star Trek (2009) e O exterminador do futuro – A salvação), por quem é apaixonada. O casal sofre justamente porque Anna logo descobre que não pode voltar aos EUA, e Jacob não quer largar sua pequena empresa e ir morar na Inglaterra. Sim, mesmo uma inglesa (ou uma austríaca, na vida real) pode passar por um aperto desses, até um cidadão de um país que fora metrópole dos EUA parece ter que seguir fielmente os trâmites diplomáticos para não se enrascar.

O romance apresentado no filme, por se basear na vida real dos escritores, parece muito verídico, e Felicity Jones e Anton Yelchin se entendem muito bem desde o começo. Extremamente charmosa, Felicity Jones comanda com elegância um filme em que uma das coadjuvantes é ninguém menos que Jennifer Lawrence, a atriz recém-oscarizada por O lado bom da vida, e que em 2010 surgira com estardalhaço no próprio Festival de Sundance com Inverno da alma. E Felicity Jones consegue esta façanha em um filme em que Jennifer Lawrence parece estar no auge da beleza. Mas esta, mesmo com um bom desempenho, tem um papel discreto (talvez o último de sua carreira, pois quando fez o filme ainda não era tão famosa), como Sam, uma secretária da mini-empresa de Jacob, e também sua amante durante os longos períodos de afastamento do casal principal, assim como Simon (Charlie Bewley) também tenta conquistar Anna durante esses sofridos intervalos. O romance de Anna e Jacob, sem dúvida com um começo muito sólido e uma química evidente, conseguirá sobreviver a estas dificuldades, de dois jovens no começo de suas carreiras, bonitos e muito assediados? Sam e Simon parecem ser bons parceiros para ambos, será que não seria melhor cada um deles prosseguir com suas vidas? Conseguirão abandonar um ao outro, deixar a relação lentamente morrer? Estarão eles lutando apenas por uma doce lembrança de uma primeira paixão, ou terão de fato algum futuro? Loucamente apaixonados lida com sensibilidade com todas estas questões, e tem tudo para atingir o público, que pode perfeitamente remeter várias das situações apresentadas no filme com suas próprias vidas. Não é um filme com vilões declarados, todos parecem bem intencionados, e os quatro (o casal principal e os amantes) sofrem por um romance que nem pode ser totalmente consumado, nem consegue ser inteiramente destruído.

Drake Doremus demonstra dominar cada vez mais a direção de um filme calcado em relacionamentos (além de Douchebag, outros filmes seus como Spooner (2009) e Moonpie (2006) também apresentam um mínimo de enfoque romântico, mesmo que aliados à comédia). Tem uma mão precisa para isso, e ainda pôde contar com uma dupla muito afiada de atores, principalmente Felicity Jones, que parece estar a meio caminho andado de se tornar uma estrela (talento, beleza e carisma ela tem, mas se tornar uma estrela nunca foi uma ciência exata). Um filme romântico, mais do que um de qualquer outro gênero, precisa de uma dupla de atores muito entrosada, que se entenda perfeitamente, e que cative o público e o faça se identificar com eles, e Loucamente apaixonados foi abençoado nessa questão, contando ainda com um diretor na ponta dos cascos e com um belo roteiro, tratado com improviso em cena pelos atores, segundo o diretor. E o filme ainda tem uma belíssima Jennifer Lawrence de lambuja, é bom lembrar. Esta é uma obra bela, suave, inteligente e profunda, sobre paixão, romance e maturidade, que conquistou muitos dos mais céticos, que normalmente se recusam a se aproximar de filmes com esta temática. Se passou meio despercebido nos cinemas mundo afora (no Brasil, já foi lançado direto em DVD...), pelo seu escopo modesto, por não carregar no sentimentalismo e por ignorar muitos dos clichês que costumam confortar parte do público (e também por não apresentar nenhuma cena caliente de nudez), não deveria ter passado. Quem se dispor a abrir esta concha tem tudo para descobrir uma pérola.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

O lado bom da vida (Silver linings playbook -2012)




My chérie amour, pretty little one that I adore, you’re the only girl my heart beats for, how I wish that you were mine...

O personagem Pat, interpretado por Bradley Cooper, enlouquece quando escuta (ou acha que escuta) esta canção de Stevie Wonder, um lembrete de seu casamento e também de quando flagrou sua esposa tendo um caso com um colega seu de trabalho. Bipolar, recentemente saído (com condicional) de uma instituição, planeja se curar abandonando os medicamentos e fazendo uso apenas de pensamentos e atitudes que julga positivos, e, se possível, recuperar sua esposa. Volta a morar com seus pais, e entra em choque constante com seu pai (Robert De Niro), um homem apaixonado pelo Philadelphia Eagles (time de futebol americano) e extremamente supersticioso, a ponto de deixar o espectador na dúvida sobre quem é o mais doido, o pai ou o filho. E logo entra em contato com Tiffany (Jennifer Lawrence), uma garota mais nova, recentemente viúva e com uma visão bem mais negativa da vida, com problemas sérios de auto-estima.

Como esta trama funciona, e por extensão o próprio filme O lado bom da vida, é um razoável mistério. O fato é que este pequeno filme de David O. Russell (de O vencedor, Huckabees – A vida é uma comédia e Três reis) conquistou os EUA, tanto a crítica como o público, e conseguiu indicações de Peso para o Oscar, como Filme, Direção, Roteiro adaptado e também nas quatro categorias de atuação, algo que não acontecia desde Reds, dirigido por Warren Beatty, em 1981. O filme consegue conviver numa tênue fronteira entre o drama, a comédia e o romance, sem forçar nunca para nenhum lado. E é absolutamente charmoso, apesar de que, se for analisado friamente, ao menos o roteiro, e várias das situações apresentadas, não fazem lá muito sentido.

Mas O lado bom da vida não foi feito para ser servido frio. Um espectador mais analítico e reflexivo provavelmente jamais vai entender a mística do filme, e vai julgar que todos enlouqueceram quando valorizaram o filme. E talvez tenha sua razão, pois o filme se ancora mesmo em sua capacidade de tirar o espectador do estado cínico habitual e fazê-lo embarcar nesta curiosa história, que por vezes é banal, e em outras ocasiões totalmente alucinada. O lado bom da vida pulsa forte, e boa parte disso se deve pela bela sintonia de seus quatro atores principais, todos nas pontas dos cascos, e com indicações merecidas ao Oscar. O casal principal tem uma bela química em tela, em um romance em muito baseado na aceitação das limitações e neuroses alheias, em compreensão mútua, enfim. Bradley Cooper vem se firmando com um ator mais “sério”, após ter ficado mundialmente conhecido pela comédia rasgada Se beber, não case. Após estrelar recentemente As palavras e Sem limites (este, inclusive, com Robert De Niro também), ele segue numa boa toada e mostra complexidade em um difícil papel, que poderia ter facilmente caído numa caricatura. É o ator do momento, assim como Jennifer Lawrence, que teve uma ascensão ainda mais meteórica desde o excelente Inverno da alma, de 2010. Em 2012 mesmo estrelou um sucesso absurdo de público com Jogos vorazes, e conseguiu com O lado bom da vida mais uma indicação de melhor Atriz (além de ganhar o Globo de Ouro na categoria de Atriz de musical ou comédia). Ele é parte fundamental da difícil explicação do mistério do sucesso deste filme. Dos quatro, é a que tem a melhor atuação, e é a alma de O lado bom da vida, que poderia ser apenas mais um filme de Sessão da tarde com uma atriz menos afiada. Sua Tiffany tem profundidade e personalidade, é decidida, mas sabe a hora de pisar em ovos e aguentar a constante lembrança de Pat por sua esposa. Ela carrega boa parte da fatia de romance do enredo, sem torná-lo açucarado ou pouco crível (apesar da trama não a ajudar nem um pouco neste sentido). Com 22 anos de idade, ela já é uma inegável estrela, e lida bem com seu papel urbano, após as quase selvagens personagens que interpretou em Inverno da alma e Jogos vorazes (se bem que, de certa forma, sua Tiffany também mantenha as garras bem afiadas).

Os dois atores veteranos também estão ótimos, dando respaldo para o casal principal, e mais molho para a trama. Jacki Weaver (antes indicada ao Oscar por Reino animal, onde teve uma grande atuação, que infelizmente foi pouco vista) tem que conviver com dois homens de gênio forte (bota forte nisso), e mostra força e ternura, além de conseguir deixar sua marca, pois seria bem fácil se tornar uma personagem apagada atuando entre Bradley Cooper e Robert De Niro. Está sempre tendo que evitar que um desastre aconteça, e quando ele acontece, deve logo apagar as chamas. E Robert De Niro parece estar justamente querendo retirar sua carreira das cinzas. Após anos atuando, quase sempre, em papéis de pouco destaque (alguns até ridículos, deve-se ressaltar), ele volta à grande forma em O lado bom da vida. Não se tem aqui o Robert De Niro ameaçador, seguro, dos filmes que fez com Martin Scorsese. Aqui sua neurose está a mil, e ele tenta conviver com a frustração de ver seu filho não emplacar na vida, além de sua própria constante derrocada no meio de apostas e superstições estapafúrdias. Ele é a válvula de escape da comédia da trama, sem deixar de ser o mais triste personagem. O espectador ri, e concomitantemente se compadece dele.

Ao final, é difícil esconder o sorriso nos lábios, mesmo que o público não entenda bem o porquê de estar sorrindo. Em tese, cada espectador já viu centenas de filmes semelhantes. Mas este tem o indefinível algo a mais, que faz toda a diferença. O algo a mais que faz com que um homem se apaixone por uma mulher, e não por outra que até faria mais sentido, que seria muito mais adequada ao seu perfil. O lado bom da vida é apaixonante, como poucos filmes foram no Cinema recente. Tem Robert De Niro voltando a honrar seu glorioso passado. Tem David O. Russell provando que o sucesso de O vencedor não foi um evento isolado. Tem um Bradley Cooper cada vez mais se firmando como um ator respeitável. Tem uma trama deliciosa, mesmo que mais furada que queijo suíço. E tem a bela e inesquecível Jennifer Lawrence. É, talvez o sucesso de O lado bom da vida não seja tão inexplicável assim... Talvez ele seja como a canção “My chérie amour”, parecida com milhares de outras, mas que costuma ficar na cabeça de quem a escuta, mesmo se a pessoa for amante de Heavy Metal e odiar qualquer balada romântica. O desprezo intelectual, baseado em argumentos concretos, pode até despontar publicamente, até por uma questão de se manter uma fachada. Mas no fundo, bem lá no fundo, é possível que muito metaleiro curta a canção quando vê que não tem ninguém por perto para lhe azucrinar por isso. E em paz pode cantar baixinho, mesmo que com uma certa vergonha, os versos dela, com “La, la, la” e tudo:

Oh, chérie amour, pretty little one that I adore, you’re the only girl my heart beats for, how I wish that you were mine…

La, la, la, la, la, la
La, la, la, la, la, la

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Entre o amor e a paixão (Take this waltz – 2012)




Sarah Polley é uma atriz canadense já de certo renome (atuou em filmes como A vida secreta das palavras, Madrugada dos mortos, Minha vida sem mim e O doce amanhã), que recentemente tem se dedicado também a roteirizar e dirigir filmes. Conseguiu um certo impacto em 2006, com Longe dela, um tocante drama onde Julie Christie tinha que lidar com a doença de Alzheimer, juntamente com seu abnegado marido (Gordon Pinsent). Em 2012 ela volta a atuar nesta frente dupla, sendo que desta vez adaptando uma peça de sua própria autoria. E, assim como tinha feito questão de Julie Christie daquela vez (pelo talento e por ser grande amiga e admiradora dela), desta vez o projeto só faria sentido, para ela, com Michelle Williams e Seth Rogen nos papéis principais.

O que causa certa consternação é que justamente este parece ser um casal muito improvável, numa história idem. Se tem um filme que demora a embalar, este é Entre o amor e a paixão. Por quase uma hora do filme, a impressão é que o barco vai naufragar e que não haverá salvação. Margot, a personagem de Michelle Williams, é casada com Lou (Seth Rogen), e ambos vivem em Toronto (cidade natal da diretora, aliás) uma estranha, e plácida, felicidade. Por várias vezes se comportam como crianças ou adolescentes, e parecem ter uma certa sintonia em comum, apesar de suas diferenças. Mas ela logo conhece Daniel (Luke Kirby), o seu vizinho de rua, durante uma viagem, e cria com ele uma estranhíssima relação, nada carnal, que a faz balançar sobre o seu futuro. Sim, temos aqui mais um triângulo amoroso. Mas é um diferente, bizarro, difícil de precisar. Parte dos problemas do começo do filme é que Daniel não parece nada crível. Ele é um artista que não se projeta, um romântico inveterado, um possuidor de um riquixá (?!?) que misteriosamente consegue viver sabe-se lá como, sem nenhuma renda visível. Parece exatamente o que ele é: Um personagem criado pela mente de um(a) escritor(a), uma fantasia, e não uma pessoa real, com problemas e questões reais. E isso tira força do filme, ainda mais em comparação com a relação de Margot e Lou, que convence mais, até porque as brincadeiras deles de cada dia remetem ao que acontece na vida de muitos espectadores também. Este desnível no triângulo amoroso, tão vital para o filme, quase que sentencia o filme ao abismo.

Quase. Milagrosamente, o filme vai se sustentando, o tempo vai passando, e o espectador mais tolerante recebe a chance de se acostumar com aqueles estranhos personagens. Alguma cena de nudez frontal incomoda aqui e ali pela absoluta gratuidade (sem moralismo algum, pode-se dizer que poucas foram mais desnecessárias no Cinema recente), outras cenas parecem não chegar a lugar nenhum... Mas muito aos poucos, quase sem se notar, o filme vai encorpando. A eterna sensação de vazio de Margot torna-se cada vez mais latente, a ponto de incomodar até a Geraldine, sua cunhada alcoólatra (um raro papel dramático para Sarah Silverman). E a surreal atração dela por Daniel vai ganhando mais vida, apesar do pouco convincente começo. Chega-se a ter uma interessante cena erótica, entre os dois, só com o uso de diálogos, com ambos inteiramente vestidos, e sem trocar um beijo sequer. É como se o calor úmido do verão de Toronto aos poucos também atordoasse o público, ainda mais como foi captado por Luc Montpellier, o diretor de fotografia (também egresso de Longe dela). E o espectador fica tão perdido quanto Margot, no seu dilema do título em português do filme (brega, mas ao menos coerente com o enredo do filme).

Michelle Williams e Seth Rogen, apesar da estranheza inicial, de fato foram boas escolhas de Sarah Polley. Funcionam como casal, e Seth Rogen demonstra que tem capacidade para papéis dramáticos, o que todo comediante, mais dia menos dia, precisa provar para um público sempre incrédulo (e raro é o comediante que não vence como ator dramático, quando se propõe a isso, mas a desconfiança inicial do público sempre acontece). Curiosamente, em Entre o amor e a paixão, ele e Sarah Silverman tem que se provar em papéis mais dramáticos do que estão acostumados, e Michelle Williams o faz para um papel mais leve e cômico do que costuma representar. Porque o filme fica mesmo no meio do caminho entre a comédia, o drama e o romance, e os atores necessitam se virar para se equilibrar neste constante desequilíbrio (só Luke Kirby não consegue muito sucesso, apesar de que o roteiro não o ajuda). É muito difícil catalogar o filme, ele não se parece muito com outros filmes, apesar de na superfície ser só mais uma comédia romântica. Há algo de complexo debaixo daquelas piadinhas, da nudez banal, e de personagens esquisitos em situações idem. Sarah Polley erra no contexto geral, mas acerta nos detalhes, nas minúcias das vidas daqueles canadenses em tese tão banais. Logo no começo do filme, Margot ressalta seu medo de ficar presa entre conexões (se refere a vôos em aeroportos, mas é nítido que o escopo deste medo é bem mais abrangente). E é exatamente o que acontece com ela e o próprio filme em si. Sarah Polley, pelo visto, não partilha deste medo (ou, se partilhava, parece tê-lo vencido). Pois é exatamente nesta zona indefinida entre o riso e o drama (ou o amor e a paixão, se preferir) que ela insere seu filme, e de onde extrai seus melhores momentos. Fica à mercê, porém, de que o espectador tenha paciência para não desistir do filme até ela conseguir atingir isso.  

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Na terra de amor e ódio (In the land of blood and honey – 2011)




A vida pode ser muito irônica. Foi durante as filmagens de um blockbuster baseado em um videogame, Lara Croft: Tomb Raider, que Angelina Jolie sofreu uma experiência que mudou a sua vida, ao ver a dureza da vida de milhares de pessoas no Cambodja, onde o filme tinha parte de suas locações. A partir daí foi cada vez mais se engajando em causas humanitárias, principalmente de refugiados, a ponto de se tornar Embaixadora da ONU, e doar aproximadamente um terço do que recebe para semelhantes causas. Na terra de amor e ódio é um filho direto desta Angelina Jolie politizada e consciente, muito mais do que a da atriz sexy de tantos sucessos no Cinema. Em seu primeiro longa de ficção (antes dirigira, em 2007, o documentário A place in time), que ela ainda produziu e escreveu o roteiro, Jolie demonstra não querer deixar, de jeito nenhum, que se caia no esquecimento toda a triste guerra, com tintas de limpeza étnica, que ocorreu com o esfarelamento da antiga Iugoslávia no começo dos anos 90.

A diretora se debruça sobre o ataque dos sérvios sobre a Bósnia, principalmente no tocante à perseguição dos muçulmanos desta região. Seu filme, duro e desconcertante, demonstra o quão próximo foi todo aquele evento do holocausto de poucas décadas antes, na Alemanha nazista. Em seu filme se observam eventos muito semelhantes, como a expulsão das pessoas de suas casas, a separação de maridos, esposas e filhos, chacinas generalizadas, e o aprisionamento e estupro sistemático de milhares de mulheres. É como se, em seu filme, Jolie advertisse a todos que a barbárie do passado pode perfeitamente voltar à tona, e com isso transformar o que hoje são comportados vizinhos em futuros inimigos mortais.

Se o filme funciona muito bem quanto à conscientização popular (o que por si só já justifica sua existência), com algumas belas cenas de grande escopo, ele tropeça justamente no que em tese seria mais fácil de retratar, no caso o drama íntimo dos personagens principais. Estes são Ajla (Zana Marjanovic) e Danijel (Goran Kostic), que se conhecem num bar e começam a dançar antes da guerra começar, e vêem o breve romance ser interrompido pelo deflagrar dos combates. Quando se reencontram, tudo está diferente, a relação de poder entre ambos passa a ser muito desequilibrada, pois ele é um militar sérvio e chefe de um campo de prisioneiros, e ela justamente uma de suas prisioneiras. E o pai dele, interpretado por Rade Serbedzija (o único rosto mais conhecido do elenco, uma daqueles coadjuvantes de diversos filmes, mais conhecido por Antes da chuva, de Milcho Manchevski), um militar de alta patente, não quer nem saber de qualquer confraternização de seu filho com um representante de um povo considerado por ele como “inferior”. A bizarra relação entre o casal não convence muito, e ambos os personagens poderiam ter sido um pouco mais elaborados. É uma relação muito doentia, e Jolie parece um pouco perdida entre a erotização dela e todo o sofrimento envolvido entre os dois. O desfecho do filme também pode soar pouco satisfatório. Fica claro que toda a atenção de Jolie estava muito mais focada em expor uma guerra que ela achava que não tinha recebido a devida atenção do resto do mundo (e com razão), do que em desenvolver um roteiro mais eficiente para o romance central da trama.

Não surpreende, assim, que o filme tenha recebido muitas críticas e elogios, quase que de forma equânime. Os espectadores mais focados no evento em si, na triste guerra em que a ONU teve que intervir (o filme inclusive aborda um pouco isso), tendem a apreciar Na terra de amor e ódio, por ele de fato pôr não só o dedo, mas a mão toda na ferida, e expor as agruras de uma guerra sem filtros. Coragem é o que não falta ao filme, e muito por isso Angelina Jolie é uma espécie de persona non grata na Sérvia atualmente. Aos mais interessados em um filme mais “normal”, de assistir ao desenrolar de um enredo mais envolvente, com personagens multifacetados, porém, a tendência é de uma relativa decepção.  Entre estes dois fronts de batalha, Na terra de amor e ódio sobrevive, com alguns ferimentos, decerto, mas com saúde suficiente para mostrar que a diretora tem futuro em duas de suas atuais profissões, tanto como diretora, quanto como Embaixadora da ONU (que, como ela mesma reconhece, é o que mais a motiva atualmente). Angelina Jolie poderia ficar o dia inteiro em uma piscina numa mansão de Beverly Hills, se quisesse. Mas prefere tentar ajudar o mundo à sua maneira, adotando algumas crianças, doando parte considerável de seus polpudos ganhos, auxiliando refugiados e, ao que parece, também passando a dirigir filmes para divulgar suas causas e temores. E ainda tem muita gente que acha que ela é uma “bad girl”... A vida pode ser muito irônica.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Verão de 42 (Summer of ‘42 - 1971)




Robert Mulligan tinha um talento inegável com crianças e adolescentes. Seus dois maiores filmes tratam exatamente da realidade sendo vista através delas, tanto em O sol é para todos como em Verão de 42 (por muito tempo conhecido como Houve uma vez um verão, no Brasil). Enquanto no filme com Gregory Peck (no papel que o imortalizou) acompanhávamos a realidade racial sulista pela ótica de duas crianças brancas, em Verão de 42 vemos a lembrança emotiva de um garoto na adolescência, e do efeito que uma mulher em especial teve sobre ele, neste ano em que os EUA já estavam em guerra e o marido dela estava distante. Em O sol é para todos, Mulligan pôde trabalhar em cima de um material de primeira categoria, no caso o livro de Harper Lee. Neste filme aqui a base não era literária, o que ele contava inicialmente era com as memórias do roteirista Herman Raucher, tanto que o livro foi inclusive escrito após as filmagens, de tanta confiança que se tinha que o filme daria certo, e consequentemente um livro sobre a história dele também daria (crença justificada, nos dois casos). Este é um caso clássico em que o roteirista é, no mínimo, tão co-autor como o diretor.

O filme é muito autobiográfico, a ponto de sequer mudar o nome das pessoas reais. Hermie (Gary Grimes) é o escritor em 1942, um adolescente normal, de seus 15 anos, que passa este verão numa ilha junto com dois amigos, Oscy (Jerry Houser) e Benjie (Oliver Connant). Verão de 42 é especial, dentre muitas coisas, por mostrar o que era ser adolescente nesta época, ilustrando alguns pequenos detalhes daquele cotidiano que um adolescente de hoje em dia teria dificuldades de imaginar. Os três ficam soltos na ilha (sequer vemos os seus pais, quando muito apenas ouvimos suas vozes), sem grandes entretenimentos, passando um bom tempo na horrenda praia inventando o que fazer para se distrair. Inevitavelmente, já estavam na fase de pensar em mulheres, e o desconhecimento de praticamente qualquer coisa sobre sexo os atormenta. Devoram o único livro que encontram sobre o assunto, e tentam ao máximo se chegar em meninas da sua idade, com a exceção de Benjie, um pouco mais novo e que sente mais medo que desejo das meninas (o que rende uma hilariante cena numa fila de cinema, onde inclusive eles “assistem” A estranha passageira, com Bette Davis e Paul Henreid). Tudo muito normal e fascinante de se ver, como uma volta ao tempo mesmo. De fato, Verão de 42 é um filme nostálgico como poucos, ainda mais capturado pela fotografia onírica e enevoada de Robert Surtees, que evoca ainda mais as lembranças emotivas de Herman Raucher. Mas há algo que apimenta tudo, que sai da normalidade e causa um fascínio inesquecível em Hermie, a ponto de fazê-lo escrever um roteiro 29 anos depois sobre aquele decisivo verão. Havia ela, naquela afastada casa.

Jennifer O’Neill. Ou Dorothy, se preferir. No papel em que é disparado mais lembrada, Jennifer O’Neill incorpora  a mulher mais velha, de seus vinte e poucos anos, casada, mas cujo marido estava servindo ao país na Guerra. Ela, com sua simples presença distante, praticamente enlouquece o pobre Herman em sua beleza, charme e simplicidade (e o espectador também não sai ileso dessa). Não que ela o seduza. Ela apenas o trata bem, com um certo afeto, mas não com o intuito de mexer com ele. Mas mexe. Confunde ele todo porque qualquer coisa que faça encanta o rapaz. Para Hermie, carregar suas compras é o paraíso, tomar seu café pelando supera qualquer noite de alta classe em Montecarlo. Ele faz de tudo para parecer adulto perto dela, treinando frases prontas e até mesmo fingindo que não conhece seus amigos quando ambos passam ao lado deles na rua, para não parecer imaturo. Algo inútil, claro, pois a distância de idade entre eles, se não é tão grande assim (menos de dez anos de diferença, talvez menos), nesta fase da vida costuma ser definitiva, quase intransponível. Mas sonhar não custa nada, e Hermie é claramente um sonhador, um especialista no assunto. Ele tudo repara nela, menos que é humana, que também tem seus medos, anseios e carências, e que sente a solidão e o tédio daquela ilha assim como ele. Poderia o jovem Hermie ver isso?

Herman Raucher, ao começar a escrever suas memórias no roteiro, inicialmente pensava mais em seu amigo Oscy, queria contar como fora a amizade deles (até como um tributo ao amigo que morrera no exato dia de aniversário de 24 anos do escritor, o que o fizera nunca mais comemorar um aniversário na vida). O filme tem essa estranha particularidade de realçar, ao menos quanto ao tempo em cena, muito mais a amizade deles do que toda a questão do fascínio de Herman por Dorothy. Mas não teve jeito, Dorothy cobrou sua força no inconsciente do roteirista, e consequentemente no roteiro e no filme. Jennifer O’Neill, objetivamente, atua apenas por doze minutos em Verão de 42. Mas são doze minutos de ouro, que envolvem todo o filme e, claramente, o próprio autor. Besteira tentar relegar Dorothy a um segundo plano. Ninguém fica imune a uma mulher como Dorothy/Jennifer, nem um garoto impressionável, com os hormônios em ebulição, nem um espectador dos anos setenta ou do Século XXI. Quando o filme termina, é dela que nos lembramos. Dela e da belíssima trilha do filme, vencedora do único Oscar que o filme levou, daqueles incontestáveis. Michel Legrand é, se não um co-autor, então uma espécie de Dorothy musical do filme. Impossível pensar em Verão de 42 sem lembrar dos simples e tocantes acordes de sua música. No tom perfeito, ela traz um sentido de saudade e nostalgia que poucas trilhas conseguem atingir.

Os atores infantis atuam razoavelmente bem, e seguram o filme quando Jennifer O’Neill não está presente. Os três estralariam uma esquecidíssima sequência, chamada O verão que passou (Class of ’44), que acompanha os três personagens já no colégio e às voltas com a guerra (numa versão mais fantasiosa da vida real). Mas era um filme fadado ao fracasso, sem as presenças de Robert Mulligan, Michel Legrand e, principalmente, Jennifer O’Neill. Pode-se dizer que os três atores-mirins seguiram para o anonimato após Verão de 42. Aliás, o filme marcou um certo ápice na carreira de todos os envolvidos, na verdade, inclusive Jennifer O’Neill, que nunca mais repetiu este verão em outras temporadas. E quanto a Herman Raucher, este até recebeu uma carta da verdadeira Dorothy, logo após o filme ser exibido nos cinemas, com grande sucesso. Mas foi um contato efêmero (nunca mais escreveu para ele), de uma mulher que já era avó, e que só queria saber se ele estava bem. Ele estava bem sim, Dorothy. Só nunca conseguiu esquecer de você, assim como ninguém se esquece de Jennifer O’Neill após assistir ao belíssimo Verão de 42. É um fascínio eterno. 


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Ruby Sparks: A namorada perfeita (Ruby Sparks – 2012)




Ruby Sparks: A namorada perfeita é um filme que sofre o impacto de expectativas destorcidas e exageradas. Isto se refere ao fato de sofrer a “maldição do segundo filme” (já que é o segundo longa do casal Valerie Faris e Jonathan Dayton), com a consequente espera de todos de que seja um filme tão engraçado e interessante como Pequena Miss Sunshine o foi (e que faça o mesmo sucesso). Mas isto igualmente vale em relação à sua própria trama. Nela o jovem escritor genial Calvin (Paul Dano) começa a escrever sobre uma garota por quem sonhou (Zoe Kazan) e logo descobre, estupefato, que ela não só passa a existir (inclusive para os outros, não é só uma miragem sua), como também a fazer e pensar tudo o que ele escrever sobre ela. Uma marionete humana capaz de, em tese, finalmente fazê-lo feliz, ele que por tanto tempo foi tão sozinho (a ponto de sequer ter amigos). O que poderia dar errado numa relação em que ele poderia controlar sua parceira em todos os seus pensamentos e atitudes?

Entretanto, Calvin logo descobre que, passado o entusiasmo inicial, aquela situação toda poderia não ser tão perfeita e promissora assim. Será que realmente tudo o que ele quer é uma mulher que o obedece em tudo? E se parar de escrever sobre ela, deixá-la seguir sua vida normal, será que ela continuaria interessada nele? O que realmente deseja Calvin, uma mulher feita sob medida para ele, ou uma que o desafie e o force a amadurecer, mesmo que com isso corra o risco de perdê-la? Ruby Sparks pode ser perfeita para ele, mas seria Calvin perfeito para ela? Seria ela capaz de escrevê-lo também? Ruby Sparks: A namorada perfeita lida com estas questões de forma surpreendente, pois a sua premissa básica em geral aponta para um filme repleto de piadas e situações inusitadas, a uma comédia mais convencional. O filme bebe de um certo tom de ironia e magia, certamente, mas prefere mais se aprofundar no romance do que no tom de comédia, o que pode decepcionar o público (e o trailer do filme não ajuda em nada isso, dando a impressão do filme ser uma comédia à la Pequena Miss Sunshine). Talvez o que ajude o filme a se concentrar mais no romance é ter dois casais no seu leme, no caso Jonathan Dayton e Valerie Faris, assim como Paul Dano e Zoe Kazan. A neta de Elia Kazan inclusive já escreveu o roteiro pensando em seu namorado Paul Dano, e isso contribuiu a se ter mais veracidade no filme (e, claro, contribuiu também a que ela mesma interpretasse o papel principal do filme, com uma carreira ainda iniciante). Há um quê de pessoal ali entre os atores, indefinível mas existente. E não deixa de ser irônico que, na vida real, foi ela quem escreveu um personagem para o namorado, para que ele vivesse de acordo com a sua imaginação...

O resto do elenco sustenta bem o casal principal, desde o irmão de Calvin (Chris Messina), sua mãe e padrasto (Annette Bening e Antonio Banderas), até o seu psicólogo (Elliott Gould). O personagem de Chris Messina e o de Annette Bening parecem pertencer mais ao universo de Pequena Miss Sunshine, mas mesmo eles no desenrolar da trama se aquietam um pouco. Esta mudança de rumo, de uma comédia anunciada nos primeiros minutos (uma espécie de Mulher nota mil refilmada), a um drama romântico no decorrer da trama, realmente puxa o tapete do público, e sente-se que o filme tateia um pouco no escuro tentando se encontrar em seu miolo. Há uma ou outra topada no meio do caminho, um escorregão aqui e ali, mas por fim o filme acha a sua voz. Com um final aberto a algumas interpretações, Ruby Sparks: A namorada perfeita pode não ser um filme perfeito, até porque os diretores e a atriz-roteirista não podem escrever a audiência perfeita, que aplaudiria o filme deles de qualquer forma, de acordo com a vontade deles (seria sensacional ter esse poder... Ou será que não teria a menor graça?). O filme é imperfeito, não é tão cômico como muitos gostariam que ele fosse, nem tão profundo a ponto de ser existencialista ou filosófico, os atores não são as beldades que boa parte do público está acostumada a ver, e as respostas, mesmo que abertas, que o enredo apresenta podem decepcionar a alguns espectadores. Mas os que permitirem que o filme reescreva suas expectativas sobre os diretores, o próprio filme, os personagens dele e, talvez o mais difícil, suas próprias fantasias e desejos pessoais, podem ter um novo olhar sobre o que há de perfeito na imperfeição.