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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Entre o amor e a paixão (Take this waltz – 2012)




Sarah Polley é uma atriz canadense já de certo renome (atuou em filmes como A vida secreta das palavras, Madrugada dos mortos, Minha vida sem mim e O doce amanhã), que recentemente tem se dedicado também a roteirizar e dirigir filmes. Conseguiu um certo impacto em 2006, com Longe dela, um tocante drama onde Julie Christie tinha que lidar com a doença de Alzheimer, juntamente com seu abnegado marido (Gordon Pinsent). Em 2012 ela volta a atuar nesta frente dupla, sendo que desta vez adaptando uma peça de sua própria autoria. E, assim como tinha feito questão de Julie Christie daquela vez (pelo talento e por ser grande amiga e admiradora dela), desta vez o projeto só faria sentido, para ela, com Michelle Williams e Seth Rogen nos papéis principais.

O que causa certa consternação é que justamente este parece ser um casal muito improvável, numa história idem. Se tem um filme que demora a embalar, este é Entre o amor e a paixão. Por quase uma hora do filme, a impressão é que o barco vai naufragar e que não haverá salvação. Margot, a personagem de Michelle Williams, é casada com Lou (Seth Rogen), e ambos vivem em Toronto (cidade natal da diretora, aliás) uma estranha, e plácida, felicidade. Por várias vezes se comportam como crianças ou adolescentes, e parecem ter uma certa sintonia em comum, apesar de suas diferenças. Mas ela logo conhece Daniel (Luke Kirby), o seu vizinho de rua, durante uma viagem, e cria com ele uma estranhíssima relação, nada carnal, que a faz balançar sobre o seu futuro. Sim, temos aqui mais um triângulo amoroso. Mas é um diferente, bizarro, difícil de precisar. Parte dos problemas do começo do filme é que Daniel não parece nada crível. Ele é um artista que não se projeta, um romântico inveterado, um possuidor de um riquixá (?!?) que misteriosamente consegue viver sabe-se lá como, sem nenhuma renda visível. Parece exatamente o que ele é: Um personagem criado pela mente de um(a) escritor(a), uma fantasia, e não uma pessoa real, com problemas e questões reais. E isso tira força do filme, ainda mais em comparação com a relação de Margot e Lou, que convence mais, até porque as brincadeiras deles de cada dia remetem ao que acontece na vida de muitos espectadores também. Este desnível no triângulo amoroso, tão vital para o filme, quase que sentencia o filme ao abismo.

Quase. Milagrosamente, o filme vai se sustentando, o tempo vai passando, e o espectador mais tolerante recebe a chance de se acostumar com aqueles estranhos personagens. Alguma cena de nudez frontal incomoda aqui e ali pela absoluta gratuidade (sem moralismo algum, pode-se dizer que poucas foram mais desnecessárias no Cinema recente), outras cenas parecem não chegar a lugar nenhum... Mas muito aos poucos, quase sem se notar, o filme vai encorpando. A eterna sensação de vazio de Margot torna-se cada vez mais latente, a ponto de incomodar até a Geraldine, sua cunhada alcoólatra (um raro papel dramático para Sarah Silverman). E a surreal atração dela por Daniel vai ganhando mais vida, apesar do pouco convincente começo. Chega-se a ter uma interessante cena erótica, entre os dois, só com o uso de diálogos, com ambos inteiramente vestidos, e sem trocar um beijo sequer. É como se o calor úmido do verão de Toronto aos poucos também atordoasse o público, ainda mais como foi captado por Luc Montpellier, o diretor de fotografia (também egresso de Longe dela). E o espectador fica tão perdido quanto Margot, no seu dilema do título em português do filme (brega, mas ao menos coerente com o enredo do filme).

Michelle Williams e Seth Rogen, apesar da estranheza inicial, de fato foram boas escolhas de Sarah Polley. Funcionam como casal, e Seth Rogen demonstra que tem capacidade para papéis dramáticos, o que todo comediante, mais dia menos dia, precisa provar para um público sempre incrédulo (e raro é o comediante que não vence como ator dramático, quando se propõe a isso, mas a desconfiança inicial do público sempre acontece). Curiosamente, em Entre o amor e a paixão, ele e Sarah Silverman tem que se provar em papéis mais dramáticos do que estão acostumados, e Michelle Williams o faz para um papel mais leve e cômico do que costuma representar. Porque o filme fica mesmo no meio do caminho entre a comédia, o drama e o romance, e os atores necessitam se virar para se equilibrar neste constante desequilíbrio (só Luke Kirby não consegue muito sucesso, apesar de que o roteiro não o ajuda). É muito difícil catalogar o filme, ele não se parece muito com outros filmes, apesar de na superfície ser só mais uma comédia romântica. Há algo de complexo debaixo daquelas piadinhas, da nudez banal, e de personagens esquisitos em situações idem. Sarah Polley erra no contexto geral, mas acerta nos detalhes, nas minúcias das vidas daqueles canadenses em tese tão banais. Logo no começo do filme, Margot ressalta seu medo de ficar presa entre conexões (se refere a vôos em aeroportos, mas é nítido que o escopo deste medo é bem mais abrangente). E é exatamente o que acontece com ela e o próprio filme em si. Sarah Polley, pelo visto, não partilha deste medo (ou, se partilhava, parece tê-lo vencido). Pois é exatamente nesta zona indefinida entre o riso e o drama (ou o amor e a paixão, se preferir) que ela insere seu filme, e de onde extrai seus melhores momentos. Fica à mercê, porém, de que o espectador tenha paciência para não desistir do filme até ela conseguir atingir isso.  

domingo, 28 de outubro de 2012

Os donos do poder (Power – 1986)




Os donos do poder, de Sidney Lumet, é uma espécie de irmão caçula de Rede de intrigas, talvez sua maior obra. Pode-se até dizer que ele encontra-se numa situação parecida com a de Fedora em relação a Crepúsculo dos deuses, ambos de Billy Wilder. Estes dois filmes guardam grandes semelhanças em relação aos clássicos absolutos destes diretores, sendo claramente inferiores mesmo tendo seus méritos, e ficam bastante à sombra deles, mal sendo lembrados hoje em dia. Enquanto Crepúsculo dos deuses e Rede de intrigas recebem todas as honras de chefes de estado, Os donos do poder e Fedora só entram na cerimônia por parentesco, são enfaticamente revistados, ninguém nota suas presenças, e mal conseguem comer um canapé.

Este esquecidíssimo filme de Sidney Lumet surpreende até no peso do elenco, numa trama que analisa os meandros de uma eleição pelos olhos de um marqueteiro que trabalha extensivamente a imagem dos políticos que o contratam, pouco se importando com suas ideologias, se satisfazendo apenas e tão somente em receber dinheiro por elegê-los. Richard Gere interpreta este personagem central (Pete St. John) com estilo e desenvoltura. Gere pode não ser dos atores mais versáteis e ter seus maneirismos, mas sabe interpretar muito bem homens cínicos e sedutores, como demonstrou também em Chicago. Os outros atores, porém, estão longe de estar nos seus melhores dias, com a exceção de Denzel Washington, no começo da carreira, que tem um papel coadjuvante que lembra também o de Richard Gere, sem muitos escrúpulos. Julie Christie está apenas correta como a jornalista que é ex-esposa de Pete St. John, Gene Hackman não convence muito como um mentor de Pete que está decadente, J. T. Walsh é subaproveitado pelo roteiro, assim como E. G. Marshall, Kate Capshaw mal tem o que fazer, e Beatrice Straight (que ganhou um Oscar de coadjuvante justamente por Rede de intrigas) chegou a receber uma indicação do Framboesa de Ouro (Razzie Awards nos EUA) como uma das piores atrizes coadjuvantes do ano (um pouco exagerado, mas ela realmente está mal).

Curiosamente, o roteiro, de David Himmelstein, é responsável tanto pelos pontos mais altos como pelos mais baixos do filme. O roteirista teve a ideia básica de seu enredo ao ver vários monitores com as propagandas políticas de vários candidatos diferentes, e os achou todos iguais, padronizados e pasteurizados. O grande mérito de Os donos do poder é ilustrar muito bem o quanto as personalidades dos políticos são tosadas, vermifugadas e perfumadas por assessores como o Pete St. John do filme. É inevitável que fiquem parecidos entre si, sempre fugindo de questões polêmicas, e mostrando personalidades falsas no sentido de diminuir a rejeição do povo por eles a um mínimo. O problema, como fica implícito no filme, é que muitas vezes o efeito de tais mudanças de atitudes não se restringe apenas ao período das eleições, com o político tendendo a manter o que deu certo durante seu efetivo mandato. Algumas cenas do filme são muito marcantes, sendo características do Cinema de Sidney Lumet, muito escorado em bons roteiros e em muitas cenas de diálogos (como 12 homens e uma sentença, Um dia de cão e O veredito). Mas o roteiro falha ao querer apresentar várias sub-tramas, por acompanhar políticos demais e abandonar alguns deles no meio do caminho. O político interpretado por J. T. Walsh, por exemplo, tem uma grande apresentação, e depois é um pouco relegado a um inexplicável segundo plano. Alguns personagens são pouco desenvolvidos por causa desta dispersão, e sente-se ao final a inexistência de uma maior unidade ao filme, faltou um norte que a bússola desordenada do roteiro (e da direção de Lumet) não soube apontar.

O resultado, enfim, resulta irregular. Mas é uma irregularidade de um diretor do porte de Sidney Lumet, com um tema interessante e nada datado (infelizmente, longe disso, o filme continua atual), e com vários atores interessantes, mesmo que pouco inspirados ou prejudicados pelo roteiro. O filme não deveria ter sido tão esquecido assim, e seria justo ter recebido também mais reconhecimento em seu tempo (foi ignorado por crítica e público em 1986). Alguém deveria puxar papo com o irmão caçula de Rede de intrigas, enquanto este recebe suas medalhas das autoridades. Os donos do poder tem algo a dizer, mesmo que o faça de forma desordenada, pulando de um assunto para o outro. E seria bom também aproveitar e pegar um drink para ele, pois o garçom nem passa onde ele está sentado...