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sábado, 1 de dezembro de 2012

The girl (2012)




Há uma parte substancial em Um corpo que cai onde Scottie (James Stewart) faz de tudo para que Judy (Kim Novak) vire a sua musa inspiradora, a ponto de exigir que ela se vista, se maquie e se comporte exatamente como ele quer. Este comportamento obsessivo foi um traço de Hitchcock que vazou para as telas, em possivelmente seu melhor filme. O famoso diretor fez isto constantemente com suas atrizes, porém sempre lidando com profissionais já de certa fama e experiência, como Ingrid Bergman e Grace Kelly, por exemplo. Com Tippi Hedren, ele pegou uma modelo sem nenhuma experiência como atriz, e fez o possível para transformá-la em uma estrela de cinema e em seu ideal eterno de uma loura fria na aparência, mas fogosa por dentro. O fracasso foi tão grande, porém, que ele jamais tentou fazer isso novamente. A situação saiu totalmente de controle, a ponto de Tippi Hedren o acusar desde então de a ter assediado o tempo todo e, consequentemente, destruir seu futuro como atriz. O filme The girl, feito para a TV pela prestigiada HBO, com Julian Jarrold na direção, tenta analisar exatamente esta explosiva situação, que tanto machucou o diretor e a novata atriz, como respingou até em Marnie, confissões de uma ladra, filme que foi terminado com desgosto por um Hitchcock que mal teve ânimo para dirigi-lo até seu final.

A ressalva que se deve fazer, desde o princípio, é que o filme é adaptado do livro Fascinado pela beleza – Alfred Hitchcock e suas atrizes, de Donald Spoto, com roteiro de Gwyneth Hughes, e que praticamente assume que apresenta a versão de Tippi Hedren para tudo o que aconteceu. The girl sofre um pouco por justamente apresentar por demais apenas uma versão dos fatos. Alguns dos eventos ocorridos foram públicos, mas vários dos retratados aconteceram entre quatro paredes, com apenas Hitchcock e Tippi Hedren presentes. A versão de Tippi Hedren está no filme e no bom livro de Donald Spoto (um conhecido pesquisador de Cinema, que já escreveu três livros sobre Hitchcock, inclusive, então não se trata de algum simples enxerido). Quanto à versão de Hitchcock, provavelmente nunca saberemos.

Que Alfred Hitchcock, como pessoa, não era fácil de se lidar, isso Hollywood toda sabia. Neurótico, irônico, sarcástico, por vezes estúpido, Hitchcock nunca teve muito traquejo social, e feriu muitas pessoas durante sua carreira (não só atores e atrizes, mas também roteiristas, compositores, fotógrafos, etc.), morrendo em 1980 praticamente sem amigos no ramo. Alguns dos fatos apresentados em The girl são indiscutíveis e foram muito testemunhados, como o tormento desnecessário que ele fez Tippi Hedren passar, em uma semana de filmagens com pássaros reais sendo jogados em seu rosto constantemente (a atriz não ficou cega por sorte). Digamos que não bastaria vestir uma roupa vermelha em Hitchcock e colocar uma barba branca nele para que o diretor virasse o Papai Noel. Do bom velhinho, ele só tinha a barriga. Segundo Tippi Hedren, Donald Spoto, e o filme The girl, porém, seu comportamento se tornou especialmente abusivo com Tippi nos dois filmes que fez com ela (Os pássaros e Marnie, confissões de uma ladra). Talvez o fato dela ser uma novata, e ter que depender mais dele do que dependeram as outras atrizes, tenha piorado o quadro. Talvez o envelhecimento de Hitchcock tenha influído, com o fim de sua vida se aproximando, e toda a sua neurose, suas fobias, a notória baixa auto-estima por sua aparência (ele se considerava grotesco) e sua repressão sexual tenham atingido o ponto de ebulição. Talvez a própria paixonite que sentiu por Tippi Hedren (uma espécie de Judy da vida real, que topou inicialmente ser moldada conforme ele queria), tenha sido maior do que sentira por outras atrizes. O mais provável é que tenha sido, inclusive, uma soma de todos estes fatores. E Tippi Hedren acabou personificando a última gota que fez transbordar a taça. Hitchcock chamava todas as atrizes de seus filmes como “The girl”. “Todos os atores devem ser tratados como gado”, costumava dizer. Mas o filme atesta que essa girl teimou em mostrar que era uma woman também.

O filme inevitavelmente cativa um pouco por mostrar os meandros da Hollywood clássica, e algo da intimidade de um de seus maiores diretores. É quase impossível que um cinéfilo não se sinta atraído pelo tema do filme, que, diga-se de passagem, não torna por demais apelativas as cenas, nem exagera o sensacionalismo do que ocorreu (dentro do que era possível de se fazer). Apesar de ser uma produção abaixo do (alto) nível que a HBO se acostumou a fazer, The girl é satisfatório, visualmente agradável, tem um bom ritmo e alguns bons momentos. Passa de ano. Mas passa raspando, com direito a choro na diretoria para ganhar mais uns décimos na nota. Imelda Staunton, como Alma, a esposa de Hitchcock (tão importante em sua vida e carreira), é praticamente desperdiçada no filme, que não lhe dá a nuance e complexidade necessária para ilustrar melhor toda aquela história. O roteiro é incompleto e vago, e não espelha bem todo o histórico de Hitchcock até aquele episódio, assim como o de Tippi Hedren. Em alguns momentos, Hitchcock parece ser todo vil, o que não parece muito crível. O filme não consegue evitar um certo maniqueísmo, como na cena de teste da atriz antes de Os pássaros, rodada juntamente com Martin Balsam, que pode ser conferida em sites de vídeos, onde nota-se que ela está muito mais espontânea, sexy e segura do que é mostrado no filme, onde Hitchcock parecia um titereiro conduzindo uma pobre marionete indefesa.

Muita da preocupação de cinéfilos para com o filme era com o ator que interpretaria Hitchcock, por acharem que não ficaria nada parecido com o “Mestre do suspense”. Este, porém, foi um dos acertos do filme. Toby Jones, se não fica de fato muito parecido com Hitchcock visualmente, mesmo assim logo nos faz esquecer isto, pois sua voz está absurdamente semelhante com a de Hitchcock, e ele também assume seus maneirismos e forma de se portar com maestria. Toby Jones, aliás, está em uma fase de muito destaque em sua carreira, atuando em um filme atrás de outro, e vários de grande sucesso (como Jogos vorazes, Poder paranormal, Sete dias com Marilyn, O espião que sabia demais, etc.). Mesmo assim, pode-se dizer que é um tremendo de um azarado. Teve uma ótima atuação como Truman Capote em Confidencial, só para vê-la ser eclipsada pela de Philip Seymour Hoffman em Capote, um filme com muito mais prestígio e que deu a ele o Oscar de melhor ator. E em 2012 vê sua atuação competente como Alfred Hitchcock provavelmente passar pela mesma estrada, com o filme Hitchcock, onde Anthony Hopkins assume o papel do diretor, tendo tudo para ser o mais lembrado.

Sienna Miller, porém, como Tippi Hedren, não alcança o mesmo sucesso de Toby Jones no filme. E a culpa não é só dela, deve ser repartida com o diretor e a roteirista, que não lhe deram muitas ferramentas para compor melhor sua personagem. Entramos e saímos do filme sem conhecer muito Tippi Hedren. A atriz também não se parece muito com Hedren, e não consegue o que Toby Jones conseguiu, isto é, de fato entrar no papel, convencer o público apesar deste problema inicial. Quem era Tippi Hedren? Ingênua e inocente? Sedutora e ardilosa? Fracassou no seguir da carreira porque Hitchcock a perseguiu, por uma possível falta de talento, ou a soma das duas coisas? O filme não responde isso, e nem a atriz consegue atrair muito interesse em sua personagem. The girl, com todas as suas virtudes e defeitos, acaba por ser mais ou menos o que normalmente Hitchcock queria de suas atrizes principais: É atrativo por fora, pois agrada em uma análise mais superficial, mas acaba sendo frio por dentro, não tendo tanto impacto e complexidade como poderia ter. 

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Mais um ano (Another year – 2010)




Depois de uma rara incursão pela euforia em seu último filme, Simplesmente feliz, onde a personagem principal ria até de tempestade, Mike Leigh volta a analisar a classe média-baixa britânica com seus habituais tons depressivos em Mais um ano. E o faz com o talento de um diretor de décadas de experiência, que trabalha sempre sem roteiro definido (famosamente seus filmes nascem de improvisações nos ensaios), e com um elenco de atores fidelíssimo a ele. Curiosamente, os filmes de Mike Leigh costumam emplacar indicações justamente na categoria de roteiro no Oscar (foi esta a única indicação do filme, perdendo para O discurso do Rei), o que demonstra que seu método nada convencional funciona de forma efetiva, já que o enredo de seus filmes é sempre bem trabalhado. Quanto ao elenco, Mike Leigh faz um rodízio inteligente com ele, usando atores que, em outros filmes seus, ficavam em segundo plano (por vezes em papéis bem discretos), e colocando-os nos papéis centrais de Mais um ano. Dessa vez quem consegue seu lugar ao Sol são as atrizes Ruth Sheen e Lesley Manville, que aproveitam muito bem suas oportunidades. Lesley Manville é Mary, a locomotiva depressiva do filme, uma mulher de meia-idade, amiga do casal formado por Jim Broadbent (Tom) e Ruth Sheen (Gerri), que, ao contrário destes, simplesmente não consegue fazer sua vida funcionar (e se afundar na bebida piora ainda mais o seu quadro). Sua performance é sublime (ela levou vários prêmios e indicações por sua atuação mundo afora), numa personagem que traz o desacerto na vida tão regrada e certinha do casal. Mas não é só ela que assim o faz, o filme trata das várias pessoas infelizes que, de um jeito ou de outro, convivem ao redor deste casal, por mais um ano da vida deles, desde o irmão quase catatônico de Tom (David Bradley) até o amigo solitário do casal, Ken (Peter Wight).

O filme lida com a tensão entre uma acomodada felicidade do casal e de seu filho com a nova namorada, e a infelicidade latente de todos os demais. Ao mesmo tempo em que aquele parece só mais um ano na vida de todos, ele também pode ser um ano decisivo. Mais um ano é daqueles filmes em que o espectador pode até descobrir mais de si mesmo através de sua reação sobre a conduta de cada personagem. O casal Tom e Gerri poderia ser visto como feliz e solidário, ou como distante e condescendente. Mary tanto pode ser uma bêbada com mentalidade egoísta de adolescente, daquelas incorrigíveis, ou alguém amável que precisa de ajuda e não a encontra, só recebendo piedade em troca. E o mesmo vale para os outros personagens, os julgamentos do caráter de cada um não são fáceis, os personagens são todos calejados e multidimensionais, e a câmera do diretor os observa com calma e diligência, despertando para os espectadores mais atentos os detalhes de cada personagem ou situação. Esta complexidade do filme de Mike Leigh encanta, até por ser este um caso cada vez mais raro de filme feito por e para pessoas de idade avançada, que não vira a cara para as tristezas e decepções da vida, não finge que elas não existem. Mais um ano é um filme duro, por vezes muito árido, que não oferece soluções fáceis e mágicas e nem rostinhos bonitos e joviais. Ele exige maturidade, curiosidade e paciência do espectador, até para poder notar detalhes como olhares, postura corporal dos personagens, etc. A reação a algo falado costuma ser muito mais revelador do que o diálogo em si, e a câmera de Mike Leigh está sempre pronta para registrar isso.

Os atores amam Mike Leigh, e não é à toa, seus filmes vivem e florescem do trabalho dos atores, que recebem um ótimo material para trabalhar, sob os olhares atentos de um diretor que os admira em suas funções. É difícil que atores razoavelmente desconhecidos como Ruth Sheen e Lesley Manville recebam papéis tão ricos através de outros diretores. Felizmente para alguns deles, Mike Leigh já deixou bem claro que nunca fará um filme tendo que aceitar ator X ou Y, por mais famoso que seja, e por mais que recebesse uma bela grana para fazer seus filmes se o contratasse. Prefere manter seu círculo de atores, e brindá-los eventualmente com papéis que marcarão suas vidas para sempre. Imelda Staunton (O segredo de Vera Drake), Sally Hawkins (Simplesmente feliz), Brenda Blethyn (Segredos e mentiras), David Thewlis (Naked), entre alguns outros, e mais Ruth Sheen e Lesley Manville neste filme aqui, todos sentiram na própria carne o quanto vale a pena fazer parte de sua trupe, fazendo sob a direção de Mike Leigh os filmes mais marcantes de suas carreiras. E evidentemente Mike Leigh também se beneficia, forjando diligentemente uma carreira de impacto no Cinema, com uma constância de filmes maduros e marcantes, que exigem um espectador preparado para ver o lado feio e triste da vida, mas que o recompensa com uma maior riqueza de olhar e de percepção.  Mais um ano é um dos maiores filmes do diretor, que domina com cada vez mais competência a câmera ao redor de seus atores, e que tem idade suficiente para tratar da velhice com intimidade. Muitos diretores surgem com tudo, e depois de uns três filmes já parecem ter dito tudo o que tinham a dizer (e a mostrar). Mike Leigh já dirigiu diversos filmes, e a força de seus filmes não parece esmorecer, pelo contrário. Após Mais um ano, tudo o que se pode pedir a ele é mais um filme. Com a vantagem de que é muito provável que mais um filme de Mike Leigh não seja apenas mais um filme qualquer.