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domingo, 16 de dezembro de 2012

Tempestade sobre Washington (Advise & consent – 1962)




Em um período delicado da história americana, no auge da Guerra Fria, um presidente já doente (Franchot Tone) tenta empurrar goela abaixo do Congresso americano um nome visto como um tanto “perigoso” para o importante cargo de Secretário de Estado, na figura de Robert Leffingwell (Henry Fonda). O Senador que é o líder da maioria (Walter Pìdgeon) tenta, assim, articular que este homem, visto como “liberal demais” tanto pela maioria como pela oposição, consiga ser aprovado pelo Congresso, mesmo com a oposição virulenta orquestrada pelo Senador Cooley (Charles Laughton), que não tolera que tal homem ocupe cargo tão importante. É nos meandros desta política que respira o roteiro de Wendell Mayes (O destino de Poseidon, Anatomia de um crime), adaptado do texto de Allen Drury, vencedor do prêmio Pulitzer. Drury trabalhou como repórter do New York Times no Congresso americano, logo ele conhecia bem aquele meio, e o filme exala esta intimidade.

O filme tem um elenco de um peso absurdo. Além dos já citados Henry Fonda, Charles Laughton, Walter Pidgeon e Franchot Tone, o diretor Otto Preminger ainda contou com Lew Ayres, Peter Lawford, Gene Tierney, Burgess Meredith, Don Murray, e mais até algumas presenças de reais senadores da época, que acrescentam veracidade à trama (reza a lenda que Preminger convidara até Martin Luther King e Richard Nixon para participarem do filme, mas estes teriam recusado). E o diretor conseguiu distribuir, ironicamente, estes grandes atores de forma democrática, ninguém “domina” o filme, todos têm sua oportunidade de brilhar. É quase que uma vitória da Democracia dentro de um filme. Aliás, o filme tem a peculiaridade de mostrar que um Presidente não tem essa força toda que muitos imaginam, muitas vezes dependendo de ajuda de diversos políticos para conseguir (ou não) efetivar Leis, Decretos e nomeações. É inusitado que tenha sido Otto Preminger, um diretor muitas vezes visto como brutal e tirânico (e odiado pela quase totalidade de atores que trabalharam com ele), o homem a focar em algo tão democrático em sua natureza, como o dia-a-dia de senadores que precisam se relacionar o tempo todo, e formar alianças cotidianamente. É possível que Preminger, como diretor já rodado (de clássicos como Laura, O homem do braço de ouro, Exodus, Anatomia de um crime, Carmen Jones e Anjo ou demônio?), apesar de suas características inatas, tenha entendido essa estranha correlação entre Presidentes e Diretores de filmes, vistos como poderosos pelo público em geral, mas muito dependentes de suas respectivas equipes quando se analisa suas funções com mais proximidade.

Tempestade sobre Washington tem este charme de mostrar a política por dentro, e se o filme remete bastante ao clássico de Frank Capra, A mulher faz o homem (de 1939), isto não é uma mera coincidência, e não só quanto ao tema, porque a Columbia de fato reutilizou alguns dos cenários daquele filme, mais notadamente o grande Congresso onde tudo se decide. O filme de Capra é superior, porém. É mais ingênuo, claro, apesar Tempestade sobre Washington também apresentar uma certa honestidade absoluta de alguns membros, algo um pouco difícil de engolir no cínico Século XXI (mesmo em 1962, com todo o respeito...). Porém, A mulher faz o homem tem a mágica que o filme de Preminger não tem, e algumas cenas muito marcantes que igualmente o filme de 1962 não apresenta. Aqui o resultado é mais redondo e uniforme, e muito interessante, deve-se dizer, até por retratar a paranoia americana com os comunistas, ainda mais no próprio ano em que aconteceu a crise dos mísseis em Cuba, um evento que tornou tão perigosamente palpável uma 3ª Guerra Mundial. Preminger mal disfarça uma crítica ao Macarthismo e sua consequente caça às bruxas, algo que ele tanto brigou para derrubar (inclusive contratando Dalton Trumbo para Exodus, e ajudando a demolir a funesta “lista negra”). E ainda se arrisca a lidar com o homossexualismo de um dos senadores. O filme pisa em um milhão de ovos neste sentido, mas não deixou de ser um tímido primeiro passo para Hollywood começar a lidar com este tema então considerado um tabu completo.

O elenco funciona muito bem tanto individualmente, quanto com um todo. Mesmo atores erráticos, como Franchot Tone, Don Murray e Peter Lawford, estão perfeitos no filme, e em alguns de seus melhores momentos. Henry Fonda está num papel menor ao qual estamos acostumados (ele “some” de vários trechos do filme), mas é o Fonda que conhecemos, honesto, resoluto, de fala mansa, mas decidida. Gene Tierney, sempre marcada como a eterna Laura, faz aqui seu último filme com Otto Preminger, em um papel discreto, mas honroso. Walter Pidgeon mostra mais uma vez que envelheceu muito bem na profissão, conseguindo mais contundência nos anos 50 e 60 do que em seus papéis mais famosos (muitos deles com Greer Garson) da década de 40. Ele é o braço direito perfeito para um Presidente em posição tão frágil. E Charles Laughton, no último papel de sua carreira, está ótimo como de costume, e só não rouba a cena porque todos estão afiados. Morreria poucos meses depois de terminadas as filmagens, de câncer.

O filme tem algumas curiosidades que chamam a atenção. Burgess Meredith, tão hostil ao Macarthismo, a ponto de também sofrer certo ostracismo por isso durante anos de sua carreira, no filme interpreta justamente um dedo-duro, que acusa um colega de ser comunista. O personagem de Peter Lawford, Lafe Smith, foi baseado em John Kennedy, que era um Senador durante o tempo em que Allen Drury escrevia seu livro. Quando o filme foi lançado, ele já era o Presidente, e Peter Lawford era justamente seu cunhado, pois estava casado com Patricia Kennedy, a irmã dele. E Gene Tierney fora amante de John Kennedy (enquanto ainda casada), e só não casou com ele porque Kennedy não queria casar com uma divorciada, e matar seu futuro político com o público conservador americano. Oleg Cassini, o ex-marido dela, depois trabalhou junto com Jacqueline Kennedy, desenhando os seus vestidos. Dentro e fora das telas, Hollywood se misturou com a política, e Tempestade sobre Washington é uma prova em celuloide disso. Uma das melhores, diga-se de passagem. Era fundamental saber ser político em Hollywood, e ser um bom ator em Washington. Aliás, continua sendo, mais do que nunca.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O veleiro da aventura (Plymouth adventure – 1952)




Os EUA são hoje o país mais rico do mundo, líderes mundiais em termos políticos e militares desde o fim da Primeira Guerra Mundial, um colosso que apenas recentemente vêm sendo ameaçado pelo crescimento da China. Mas em 1620, o cenário daquela região era desolador. Tudo o que a Inglaterra tinha ali eram apenas algumas colônias vagabundas esparsas na Costa Leste, desprezadas pela metrópole que considerava que tinha chegado tarde na festa da era dos descobrimentos, já que os espanhóis deitavam e rolavam com a absurda quantidade de ouro e prata que descobriram em suas vastas terras nas Américas Central e do Sul, e os portugueses conseguiam lucros no Brasil também com monoculturas. Já tudo o que aquelas colônias tinham, na visão da coroa britânica, era o mesmo clima temperado da Inglaterra, nenhum ouro ou prata, e um monte de índios hostis. Não surpreende, assim, que existisse o desinteresse de que eles investissem qualquer coisa naquele novo mundo. Mas se o Governo britânico ignorava aquelas terras, uma parte de sua população, oprimida por um sistema de classes que nunca permitia sua ascensão social, e sufocada em seu credo religioso, começou a se interessar pela perspectiva de começar do zero em um novo lugar, por mais inóspito que fosse. Um inusitado lugar que não tinha nada que atraísse a atenção dos ricos cidadãos ingleses, mas tinha o suficiente para atrair os pobres cidadãos ingleses. E, assim, em 1620, 102 corajosos britânicos resolveram abandonar tudo (literalmente) e tentar a sorte nesta terra inóspita, arriscando morrer na árdua viagem no navio Mayflower, ou nas agruras de se viver numa terra sem suporte de ninguém. Em menos de um ano, só sobreviveram 53 destes peregrinos, sendo a maioria mulheres e crianças. Mas nenhuma dessas 53 pessoas quis retornar para a Inglaterra, mesmo com tanto sofrimento.  Era tudo ou nada, desde o começo.

O veleiro da aventura conta a história desta viagem e desses pioneiros. O filme surpreende por não forçar muito a mão no tom patriótico. Sendo um filme americano (de um povo que toca hino nacional toda hora, e leva a bandeira a qualquer canto), da Metro-Goldwyn-Mayer (estúdio que tendia a glamourizar os fatos) e realizado nos anos 50, a chance de se forçar a barra era grande, mas felizmente o diretor Clarence Brown (da velhíssima guarda, dirigiu clássicos do cinema mudo como O último dos moicanos, O águia e A carne e o diabo), em seu último filme, e a MGM souberam conduzir o filme sem histrionismos. O enredo, adaptado do livro homônimo de Ernest Gebler, romantiza um pouco a história, principalmente quanto a Gene Tierney estar sempre maquiada e de batom, e ao inventar uma intriga para levar os peregrinos a um outro lugar (isso aconteceu, o destino era a Virgínia, mas por razões climáticas não chegaram lá e se estabeleceram em Cape Cod, Massachussets, e não por causa de uma intriga), e a criar um breve romance entre a personagem de Gene Tierney e o de Spencer Tracy, que interpreta o capitão do navio. Este romance, de fato, não “pertence” muito ao enredo, não convence, mas de resto a história é conduzida com dignidade. Todos os nomes dos personagens são corretos, com nenhum personagem inventado para dar um molho à trama (coisa comum no Cinema), e inclusive o filme mostra que nem todos os peregrinos eram religiosos, e que a imundície à bordo, e o assédio dos marinheiros às mulheres, foram pragas de uma longa e tediosa viagem, num navio bastante modesto. O filme também não ignora as mortes na viagem, e se deixa a desejar um pouco, é na rápida resolução de tudo ao final, pouco mostrando a vida na nova colônia. Mas é um filme que tem méritos também ao se utilizar um navio de tamanho semelhante para as filmagens (construído especialmente para o filme), fazendo assim pouco uso de miniaturas, e nos efeitos especiais das duras tempestades, que até renderam ao filme um Oscar de efeitos especiais. O filme fica mais realista assim. Entretanto, é de se pensar como que um tema tão caloroso aos americanos não tenha gerado uma superprodução desde este hoje tão esquecido filme, com os efeitos especiais de hoje em dia, e com um tom revisionista da história.  

Spencer Tracy ajuda o filme a ficar com os pés no chão ao atuar como o capitão do navio, Christopher Jones, por ser ele, junto de seu imediato interpretado por Lloyd Bridges (numa de suas melhores atuações), sempre a voz dissonante, ao nunca acreditar em toda aquela loucura, e ficar gozando os pobres passageiros. É raro ver Spencer Tracy num papel antipático, mas ele o desempenha com correção. Van Johnson era um risco quanto ao elenco, com sua cara de galã juvenil, que poderia afundar o filme, mas se comporta bem. E Leo Genn, com sua voz lendária, acrescenta dignidade à trama, no papel central de William Bradford, que foi um dos líderes da Colônia, impedindo que ela caísse numa anarquia. Tais líderes redigiram o Pacto do Mayflower, que entre outras questões exigia os votos da maioria para que algo fosse aprovado. Uma espécie de Constituição primitiva, a primeira dos Estados Unidos.  O escritor Eduardo Galeano afirmou, sobre os EUA, que eles tiveram “a importância de não nascer importante”, e isso realmente ajudou que esses peregrinos corajosos e simplórios construíssem as bases da futura potência. Já há algum tempo, porém, o governo americano fecha as portas justamente para os imigrantes que tentam chegar ao país fugindo de realidades desoladoras, com o intuito de construir uma vida melhor nos EUA, ou morrer tentando. Não são mais um país aberto aos William Bradfords do Século XXI, como o foram até o começo do Século XX. Uma triste ironia da história.