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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A hora mais escura (Zero dark thirty – 2012)




Muitos podem pensar que o filme A hora mais escura tenha nascido como um tentativa de glorificar os EUA, com o momento de catarse coletiva americana que foi a morte de Osama Bin Laden, em 2011. Mas, na verdade, o projeto inicial de Kathryn Bigelow e do roteirista Mark Boal (ambos formaram uma oscarizada parceria em Guerra ao terror, de 2008) era totalmente diverso. Eles já tinham inclusive finalizado um roteiro e estavam prontos para filmar um enredo sobre a batalha de Tora Bora, onde os americanos quase conseguiram pegar Bin Laden num complexo de cavernas no Afeganistão, em 2001. Tudo estava pronto para um projeto calcado em decepção militar, e no sentimento global de que nunca Bin Laden seria encontrado. Mas a vida puxou o tapete da diretora e do roteirista, ao mesmo tempo em que lhes deu um grande presente, quando estourou a notícia de que Bin Laden tinha sido alvejado por uma força especial de operações dos EUA (o SEAL Team Six) em uma espécie de bunker em Abbottabad, no Paquistão, em 2 de Maio de 2011. Eles sentiram que tinham, assim, que redirecionar todo o projeto, e tentar entender como foi o sofrido (e burocrático) processo de não só se descobrir onde Bin Laden estava, como também de conseguir capturá-lo ou matá-lo no local.

Mark Boal e Bigelow fizeram uma extensa pesquisa, que inclusive trouxe dúvidas e acusações de políticos americanos de que teriam tido um acesso indevido a informações confidenciais, além de possivelmente estarem querendo puxar uma brasa para a sardinha do Presidente Barack Obama, que no fim das contas tinha dado a autorização final para a investida do SEAL Team Six. Bigelow logo descartou esta última hipótese, já que o nome de Obama sequer é citado em seu filme. Assim como Guerra ao terror, este seu filme não tem um caráter muito político, o foco de Bigelow está mesmo em mostrar as entranhas da guerra por parte dos soldados e, mais especialmente no caso de A hora mais escura, nos funcionários da CIA que tentam descobrir informações vitais para se conseguir o objetivo final.

Quanto à alegação de que a produção do filme tivera acesso a informações proibidas a civis, as respostas geralmente seguiam a linha de “sem comentários”, com a esperada defesa do sigilo das fontes. No fundo, o fato de A hora mais escura ter recebido críticas de diversos políticos e militares americanos não deixa de ser um bom sinal, isso mostra que é um filme que incomodou o poder estabelecido (filmes chapa-branca só recebem elogios dessas pessoas). O filme dirigido por Kathryn Bigelow de fato consegue fazer o espectador se sentir por dentro de todo aquele processo, inclusive fazendo críticas à burocracia e inércia do Governo americano e dos militares, que de fato dão a impressão de que vão deixar Bin Laden escapar quantas vezes for localizado. E, claro, a diretora ainda mete a mão com vontade no maior vespeiro de todos, o uso de tortura pelos americanos para obter informações dos prisioneiros. Aqui, não tinha muito para onde correr, se ela não mostrasse tortura nenhuma, seria acusada de estar pilotando um filme chapa-branca que receberia uma chuva de críticas por parte de críticos de Cinema e jornalistas, dentre outros profissionais, por estar tentando maquiar a realidade. E se mostrasse seu uso, o Governo e os militares americanos viriam de garfo e faca em cima (como vieram), dizendo que o filme é apenas uma ficção, um monte de mentiras, o desprezando, em suma. Pelo visto, já que as críticas eram inevitáveis, Bigelow resolveu recebê-las fazendo um filme duro, verídico e direto-ao-ponto, como é de seu feitio. A tortura está no filme, mas não é glorificada de forma alguma, inclusive fica-se com a impressão que, sob tortura, as informações poderiam ser inventadas só para que o torturado parasse de sofrer.

E é justamente na forma de se lidar de forma mais inteligente com a busca por Bin Laden que entra em cena a personagem Maya, de Jessica Chastain. Ela é definida desde o começo como uma “killer”, que se refere não à sua capacidade de puxar o gatilho, mas de não desistir nunca, não importando os obstáculos. A Maya de Jessica Chastain é obstinada, e guarda muitas semelhanças com o personagem de Jeremy Renner em Guerra ao terror. Ambos eram obsessivos em seus trabalhos, indisciplinados, e com uma vontade férrea de fazerem o que acham certo, pouco importando ordens em contrário, assim como ambos parecem não ter vida fora do trabalho. Maya, inclusive, dá a impressão de não ter sequer um amigo, ela é um lince com olhos apenas para Bin Laden, por mais escondido que ele esteja. E parece tão fanática como ele, mesmo que com objetivos claramente diferentes (talvez Bin Laden nunca fosse capturado se quem estivesse à sua procura trabalhasse só de 9 às 5, convenhamos). Ela consegue oprimir seus superiores, algo muito difícil em ambientes de hierarquia militar, ainda mais para uma mulher. Todos de certa forma a temem, e acima de tudo a respeitam. É quase como se Jessica Chastain representasse a própria Kathryn Bigelow dentro do filme, tendo em vista que Bigelow vêm se afirmando em um ambiente eminentemente machista que é o gênero Guerra, visto como machão por natureza. Jessica Chastain, que surgiu para o grande público como a esposa dócil e submissa de Brad Pitt em A árvore da vida, de Terrence Malick, mostra que pode interpretar com igual competência um papel tão mercurial e imponente como o de Maya, sem cair na caricatura. Sua meteórica carreira assombra por ela já se mostrar estabelecida no Cinema americano, fazendo diversos filmes importantes, um atrás do outro (A árvore da vida, O abrigo, Histórias cruzadas, Os infratores, etc.), com ela não tem essa de “comer pelas beiradas”, ela já está lambendo o prato. Chastain domina totalmente o filme, mesmo nem tendo tanto tempo em tela assim, e ainda por cima em um filme composto de inúmeros personagens, interpretado por atores da chapa de James Gandolfini, Jason Clarke (ótimo também, como um torturador que vai sentido o peso do que faz), Jennifer Ehle (Contágio), Kyle Chandler (Super 8), Harold Perrineau (o Michael da série Lost) e Joel Edgerton (Guerreiro).

O filme, mesmo um pouco longo, tem um bom ritmo, e exige uma certa atenção do espectador para não se perder no meio de alguns nomes e patentes. Mas tal esforço é recompensado, pelo vislumbre dos meandros da inteligência militar americana, e pelo seu excelente final, onde vemos como foi executada a operação que culminou com a morte de Bin Laden. É uma longa sequência magistral, de grande tensão, e que passa a importância daquele momento, após dez anos procurando um homem que causara uma cicatriz na alma dos EUA. Fecha com competência um filme tenso como A hora mais escura, cujo título em inglês se refere exatamente à hora (no jargão militar, meia-noite e meia) da operação que trouxe uma rara vitória, inclusive midiática, na guerra contra o terrorismo.

Kathryn Bigelow impressionou muita gente ao ser a primeira mulher a ganhar o Oscar, ainda mais no ano de Avatar (o recordista com a maior bilheteria da história do Cinema), dirigido justamente por seu ex-marido, James Cameron. Se parecia um Oscar precipitado, ganho num impulso, A hora mais escura é um argumento em celulóide, uma chancela after-the-fact que valida este Oscar recebido por ela em 2010, não só pelas indicações ao prêmio que o filme recebeu (para melhor Filme, Atriz, Roteiro original, Edição e Edição sonora), como também pela evolução que ela mostrou com este filme, que pode não ser político, mas faz pensar sobre a pouca eficiência das torturas, a burocracia e a obsessão de pessoas que largam tudo por um ideal. A hora mais escura chegou para Osama Bin Laden em 2011, morto num complexo onde nunca saía, em total reclusão, e com o corpo jogado no mar. Para as carreiras de Jessica Chastain e Kathryn Bigelow, porém, o futuro traz grandes expectativas, e o mundo se abre para elas. Melhor nem tentar muito resistir, até porque ambas já demonstraram que não tem nenhum medo de cara feia.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

O homem da máfia (Killing them softly – 2012)




Cinco anos após O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford, o astro Brad Pitt e o diretor Andrew Dominik voltam a trabalhar juntos, em um filme que igualmente reúne todas as condições para dividir crítica e público. Desta vez o diretor desta vez abandona o velho Oeste para se debruçar sobre o velho submundo, o dos gângsters de baixa renda, como os retratados em Os bons companheiros. Mas as semelhanças com o clássico de Scorsese praticamente param por aí. O homem da máfia é um filme lento, atmosférico, que confia mais em estabelecer um certo clima de noir moderno (sem femme fatale, deve-se dizer, aqui os homens caem sozinhos) do que em trazer uma ação empolgante. É um filme mais focado em diálogos, mas não em aqueles ágeis, cortantes e envolventes, como em um Pulp fiction da vida, ou daqueles de se citar toda hora, como os da trilogia O poderoso chefão. Os diálogos do filme de Andrew Dominik são daqueles pouco brilhantes, mundanos mesmo, mas são críveis porque os personagens que os emitem também são assim. Praticamente todos fazem besteiras no filme, e depois passam a vigiar a própria sombra com medo do castigo.

O homem da máfia guarda semelhanças, no tratamento melancólico e fatalista, com Os amigos de Eddie Coyle, um filme de 1973, dirigido por Peter Yates, com Robert Mitchum. E isso não surpreende, pois ambos foram baseados em livros de George V. Higgins. Andrew Dominik, porém, atualizou a história e a trouxe para o ano de 2008, justamente o da crise financeira e o da disputa eleitoral que levou Barack Obama ao poder. A campanha política em si está sempre em segundo plano, geralmente em uma TV em que nenhum dos personagens presta atenção. Aqueles marginais claramente não acreditam nem um pouco nas palavrinhas bonitas de todos os políticos. Eles conhecem a vida dura deles, e sabem que não vai ser um partido republicano ou democrata no poder que vai mudar muita coisa, ainda mais para quem vive à margem da sociedade. Mas a crise financeira, esta sim os incomoda. E o diretor faz uma estranha, mas pertinente, analogia da vida dos gângsters com o que seria a vida de economistas e altos investidores. Uma aposta de alto risco, no filme, que conduz a um roubo oportunista, de certa forma espelha no que resultou a escalada da venda de dívida podre com o disfarce de dívida boa das hipotecas americanas. Era o mundo financeiro desabando por falta de fé no sistema em 2008, e o pequeno mundo dos insignificantes gângsters do enredo também sofrendo, pois ninguém mais quer arriscar seu patrimônio em jogos arriscados (jogos de cartas, e não de ações ou debêntures), e tudo por causa da ambição temerária destes tais ladrões, e do homem que pensou toda a operação.

Como não poderia deixar de ser, isto é um trabalho para o personagem de Brad Pitt resolver. Ele aparece apenas depois de bons minutos, mas toma conta do filme a partir daí. Ele está pronto para matar, mas não de forma atabalhoada. Ele gosta de matar suavemente, de forma quase indolor (o que explica o título original, “matando-os suavemente”, em uma tradução livre). Até prefere que um colega seu (James Gandolfini, o inesquecível Tony Soprano da famosa série de TV Os Sopranos) tente matar um dos “condenados”, por o conhecer e não querer misturar sentimentos durante o seu serviço. Mas mesmo neste mundo há uma certa burocracia, e ele deve seguir o que sugere/ordena o personagem de Richard Jenkins (O visitante, Queime depois de ler), e tentar improvisar com os erros que surgirem pelo caminho, na procura pelos ladrões.

Este filme registrou algumas pessoas saindo no meio das sessões nos EUA. Não é difícil de entender, inclusive quando se analisa o trailer dele, que promete um filme ágil, alucinante, e de diálogos marcantes. O homem da máfia não é este tipo de filme, apesar de estar sendo vendido assim. Trailers visam vendas, trazer o máximo de pessoas possível para dentro dos Cinemas. Não à toa, costumam gerar muitas decepções no público, por prometerem melancias e entregarem laranjas. Para o bem ou para o mal, Andrew Dominik não é Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Quentin Tarantino ou mesmo Guy Ritchie. O homem da máfia, apesar do tema, tem seu DNA egresso de O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford, apresentando algumas melhoras quanto à sua menor duração, e com atores um pouco mais tarimbados no seu leme (Ray Liotta e o ator/dramaturgo Sam Shepard também estão no elenco, em papéis menores). Este é o estilo do diretor, e saber isso de antemão evita que se criem expectativas erradas.

Para o que se propõe, O homem da máfia é um belo filme. O clima desolador, melancólico, de poucas esperanças, e onde cada um zela por si e evita esperar grandes ajudas dos outros, é muito bem trabalhado, evocando até um certo niilismo. Duas cenas saltam aos olhos, uma pela tensão (a do assalto propriamente dito) e a outra pelo esmero visual, um assassinato em câmera-lenta que deixaria Sam Peckinpah orgulhoso (uma das grandes cenas de 2012). O final deixa um pouco a desejar, até por ser um pouco abrupto, e por trazer o único discurso destoante do filme, que soa forçado. Mas fora isso é uma obra muito bem orquestrada, que mostra a evolução do diretor, que soube trabalhar com a adaptação do texto (o roteiro também é dele) e com os atores, com todos apresentando boas atuações (apesar de que poderia ter aproveitado um pouco mais o James Gandolfini). Porém, como é quase inevitável, é um filme que vai agradar a maioria dos críticos, e desagradar à maioria do público. Porque este vai seco para ver um novo Pulp fiction, Drive ou Os bons companheiros. Se fosse preparado para ver apenas o novo filme de Andrew Dominik, sairia bem mais satisfeito. Trailers e spots de TV podem ganhar trazer ganhos a curto prazo, mas podem ser catastróficos a longo prazo. Perde-se a confiança do público, algo incomensurável. Assim como também o era a fé do público no Sistema Financeiro, antes do escândalo do sub-prime. Nem os gângsters gostaram de ver o resultado daquilo, de assistir a um sistema que sabota a si mesmo.