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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Anna Karenina (2012)




Em 2007, Joe Wright dirigiu uma pérola cinematográfica chamada Desejo e reparação. De condução e ritmo praticamente irretocáveis, o filme só saiu de tom em um único momento, justamente na cena de evacuação das tropas inglesas da Europa Continental, um longo plano ininterrupto que isoladamente faria qualquer cinéfilo babar, mas que dentro do contexto do filme soou como um soluço na trama, tirando um pouco o peso do enredo durante aqueles poucos minutos. Com Anna Karenina, Joe Wright faz quase que o inverso, ele subordina a intrincada trama de Tolstoi ao visual esplendoroso do filme, dando pouca relevância à trama em si e baseando boa parte de seus esforços em criar, de acordo com uma citação sua, uma espécie de “balé em palavras”.

Anna Karenina tem mesmo um pouco disso,como se fosse um musical sem canções, pois é todo artificialmente criado, nos mínimos detalhes, com o intuito de deslumbrar o espectador a cada segundo. E deslumbra. Visualmente, Anna Karenina é dos mais belos filmes produzidos nos últimos anos. Todas as suas indicações foram merecidas no Oscar (Fotografia, Figurinos, Trilha sonora e Design de Produção), e em algumas delas é o trabalho de maior peso dentre os indicados (merecia indicação de Edição também, muito criativa nas transições entre cenas, por exemplo). Os outros filmes de época do diretor, Orgulho e preconceito e Desejo e reparação, já eram produções de grande esmero, mas Anna Karenina está em outro patamar, se utilizando muito bem de um grande palco de um teatro londrino abandonado para sediar boa parte do filme. O visual é propositalmente artificial, que pode incomodar algumas pessoas, isso se elas ainda tiverem algum senso crítico no meio de tanta beleza. Algumas cenas, como a da dança entre Anna Karenina (Keira Knightley mais uma vez, o amuleto de Joe Wright) e Vronsky (Aaron Taylor-Johnson), a corrida de cavalos, e a própria cena final são inacreditavelmente belas. A câmera de Joe Wright dança ao redor dos personagens e cenários, com uma elegância raramente vista, e o próprio trabalho sonoro é muito interessante, em vários casos enfatizando a solidão e rejeição de Anna no meio daquela rígida sociedade, com um interessante uso de silêncios.

No meio de tanta criatividade, esplendor e esmero, porém, o texto de Tolstoi fica um pouco para escanteio, quase que sem-graça de lembrar ao diretor que ele existe e que muitos poderiam ficar decepcionados de ver uma obra desta envergadura com tanta predominância do visual sobre o texto. Não há problema nenhum em se fazer uma adaptação que altere bastante a obra original, vários filmes de sucesso seguiram esse rumo. O problema é quando a obra original é um dos maiores clássicos da História da Literatura. Com esse tipo de coisa não se brinca, sob pena de se sofrer uma saraivada de críticas. Alfred Hitchcock sempre entendeu isso, e nunca quis adaptar grandes obras, justamente para não sofrer este tipo de escrutínio e ficar livre para fazer o que quisesse (numa exceção em sua carreira, sofreu muito na produção de Rebecca, a mulher inesquecível justamente porque era um livro de enorme sucesso na época, e foi obrigado a ser fiel ao texto de Daphne Du Maurier). É de se perguntar o porquê de Joe Wright não fazer o mesmo tratamento em cima de um livro ou peça de menor expressão. Como escolheu Anna Karenina, ele e o roteirista Tom Stoppard (de Shakespeare apaixonado, Brazil - O filme e Império do Sol) sofreram críticas não por deformar a história (que é aceitavelmente fiel ao livro), mas por reduzirem seu peso e importância, com a exceção da parte final do filme, onde eles tentam se emendar neste sentido, e acrescentar relevância no meio de toda aquela beleza.

O elenco coadjuvante está afiado e contribui muito com o filme, contando com Matthew Macfadyen (Oblonsky), Olivia Williams (Condessa Vronsky), Alicia Vikander (a atriz de O amante da rainha, como Kitty), e Emily Watson (Condessa Lydia Ivanova), dentre outros. O mesmo, infelizmente, não se pode dizer da dupla principal, logo ela, tão fundamental para qualquer adaptação deste clássico de Tolstoi. Keira Knightley, que deve boa parte da elevação de prestígio de sua carreira à sua parceria com Joe Wright, dessa vez não convence no papel. Ela parece jovem demais e, pior, apresenta pouca profundidade no papel-título. Em comparação com Greta Garbo e Vivien Leigh, as mais famosas intérpretes de versões americanas no Cinema deste livro, ela sai perdendo feio (concorrência forte, é claro, mas quem se propõe a um papel desses deve saber de antemão que o nível de comparação será elevado). Ela já provou que rende bem em filmes de época (não só em filmes de Joe Wright, mas também em A duquesa, por exemplo), mas dessa vez não parece tão compenetrada quanto antes, demora a esquentar e só apresenta uma boa atuação na parte final, onde até demonstra um interessante aspecto quase-esquizofrênico da sua personagem. Aaron Taylor-Johnson (de Selvagens e Kick-Ass – Quebrando tudo) também parece um pouco jovem demais, e não demonstra ainda ter capacidade de encarar um papel de peso em uma produção tão avantajada. A falta de química entre ambos também atrapalha, evitando que a relação deles ganhe o peso que deveria ter. Jude Law, como Karenin, o marido de Anna, é o de melhor desempenho dentre os três (talvez até do filme inteiro), surpreendendo a muitos que costumam duvidar de sua capacidade de atuação. Ele sim parece ter a consciência de que está numa adaptação do clássico de Tolstoi, e que é bom estar nas pontas dos cascos para não comprometer. Seu olhar triste e amargurado carrega boa parte do filme, sem cair na tentação de virar uma espécie de vilão estereotipado.

Joe Wright mostra em Anna Karenina, mais uma vez, que é um diretor de mão-cheia, que domina a arte cinematográfica como poucos no Cinema atual. De certa forma, mostra até demais, Anna Karenina tem um quê de exibicionismo de sua parte. É possível que o resultado final fosse mais harmonioso e enfático se ele servisse um pouco mais à história do que o contrário, que fosse um instrumento dela, e não o principal artífice desta versão, deixando interpretações e o próprio texto em segundo plano. Este seu filme termina sendo com um belíssimo restaurante de luxo cinco estrelas, com uma vista fantástica, serviço de primeira e clientela expressiva de VIPs, mas que peca um pouco justamente na qualidade dos pratos servidos, que são lindos, mas um tanto insossos. Falta drama e contundência no meio de tanta exuberância. Falta Tolstoi e sobra Joe Wright, o que acarreta em uma versão belíssima de Anna Karenina, mas um tanto vazia em sua essência, e que custa a empolgar e envolver o público. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

O amante da rainha (En kongelig affære – 2012)




No final do Século XVIII, ainda havia algo de podre no Reino da Dinamarca. Não havia o Hamlet fictício de William Shakespeare, é claro, mas as intrigas da corte e as disputas pelo trono continuavam atribuladas. Um país então bastante atrasado em relação ao resto da Europa, a Dinamarca teimava em se ater a tradições feudais, com uma nobreza e um clero que não queriam largar o osso, e com quase todos os camponeses presos a relações de servidão em relação aos nobres. Para piorar tudo mais um pouco, o Rei em exercício era Christian VII, considerado devasso e com rompantes de insanidade. Sua jovem esposa, recém-vinda da Inglaterra, passa vários apertos a seu lado, sendo maltratada o tempo todo, mesmo dando ao Reino de cara um herdeiro masculino ao trono. É neste cenário nada acolhedor que Johann Friedrich Struensee chega para ser o médico pessoal do Rei. Mesmo sem grandes currículos, e em certo ostracismo por ter ideias iluministas (até escrevera panfletos assim, que o relegaram a ser um mero médico de província), Struensee conquista o Rei inicialmente com sua erudição, paciência e cumplicidade. Mas é uma conquista árdua, sujeita a perseguições e suspeitas de um Rei profundamente instável, que podia sorrir para ele num momento, e ordenar sua execução no minuto seguinte. É andando nesta corda bamba balouçante que Struensee tenta se equilibrar, ao mesmo tempo em que vai conquistando a confiança da Rainha com sua cultura e seus ideais.

O infeliz título em português do filme tenta desmanchar um pouco os prazeres, mas não consegue, pois este é um filme fascinante, baseado em incríveis fatos reais, sobre um passado pouco conhecido de um país hoje visto como progressista, mas que era profundamente retrógrado na época. O filme tem alguns paralelos com As loucuras do Rei George, mas vai mais fundo do aquele filme ia, se concentrando também na vida ao redor do monarca. Struensee tenta influenciar aos poucos o Rei, querendo que ele faça as reformas necessárias, mas como fazer isso com um Rei tão instável, e com a nobreza e o clero em seus percalços? Struensee enxerga toda a floresta, mas os homens no poder só querem defender as suas árvores em particular, e estão dispostos a tudo para defender seus status e privilégios.

A atuação do trio principal de atores ajuda sobremaneira a que o diretor Nikolaj Arcel consiga envolver o público na trama real. Mads Mikkelsen, disparado o ator mais conhecido do elenco internacionalmente (o Le Chiffre de Cassino Royale, tendo atuado também em Coco Chanel & Igor Stravinsky e Depois do casamento, entre outros), atua com muita competência e carisma como Struensee, um homem que faz um pouco de tudo, e tenta tocar todos os instrumentos ao mesmo tempo sem poder desafinar. Alicia Vikander (a Kitty de Anna Karenina, versão de 2012 dirigida por Joe Wright) está um degrau abaixo como Caroline Mathilde, mas ainda assim demonstra em seu jovem semblante a decepção e receio de fazer parte de um casamento arranjado com um homem, a princípio, tão estúpido e instável. E Mikkel Boe Folsgaard dá um show como Christian VII, sendo ameaçador e frágil ao mesmo tempo, sempre deixando o espectador e os outros personagens em uma posição instável, sem saber como vai proceder em seguida. O ator, em sua estréia no Cinema, ganhou o Urso de prata em Berlim por sua atuação, com muito merecimento (o filme também ganhou o Urso de prata pelo inteligente roteiro de Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg, parceiros de longa data, inclusive no roteiro da versão sueca de Os homens que não amavam as mulheres, de 2009, dirigida por Niels Arden Oplev). Um prêmio muito merecido, e que aponta um grande futuro para um ator que passou com louvor por um batismo de fogo, em um papel muito difícil. A veterana Trine Dyrholm (de Em um mundo melhor, filme vencedor do Oscar de filme estrangeiro de 2010, de Susanne Bier, e também Festa de família, de Thomas Vinterberg), como Juliane Marie, está sempre à espreita para defender seus interesses, assim como o sinistro Guldberg, interpretado com a frieza necessária por David Dencik (de O espião que sabia demais e Cavalo de guerra). Coadjuvantes como eles carregam de tensão uma trama que pode parecer antiquada em sua essência, por abordar reis e nobres, mas que continua relevante por analisar a eterna resistência a avanços, mesmo que sejam daqueles com benefícios incontestáveis a 99% da população.

Nikolaj Arcel acerta em praticamente tudo no filme, desde a reconstituição de época, como também no comando das atuações e no ritmo do filme. Para um diretor que diz querer fazer um filme de cada gênero antes de se aposentar, pode-se dizer que ao menos neste drama histórico ele obteve sucesso, em sua recente carreira de diretor. Seus pecadilhos são perfeitamente perdoáveis, como deixar o linguajar do filme em dinamarquês, quando na verdade esta era a língua do povo, mas não dos nobres e da corte dinamarquesa, que falavam alemão (mais um aspecto do quanto estavam alienados em relação ao resto do país). É ajudado, claro, por uma competente equipe, mais notadamente o Diretor de fotografia, Rasmus Videbaek, e os compositores da bela trilha sonora, Gabriel Yared e Cyrille Aufort. Juntos, todos eles criaram uma aula de história fascinante em forma de Cinema, que tem tudo para agradar a todos os públicos. Se fosse um filme americano, O amante da rainha concorreria a várias categorias no Oscar (dentre outros prêmios de prestígio). Como não é, tem que se satisfazer com a categoria de filme estrangeiro apenas, e ser visto por um público bem mais reduzido. É injusto, mas não deixa de ser algo corente com o próprio enredo do filme, porém. O amante da rainha não tem grandes currículos, por contar com diretor e atores (afora Mads Mikkelsen) desconhecidos. Mais ou menos como Struensee, seu destino é comer pelas beiradas, e tentar conseguir deixar sua marca mesmo assim. Apesar de tudo, uma civilização não precisa de mais do que alguns Struensees para navegar para a frente, mesmo com tanta gente remando para trás. Às vezes só um basta, inclusive. A história costuma guardar os nomes de Reis e Presidentes, mas as pessoas que mais importam raramente estão nessas posições, e O amante da rainha é uma prova disso.