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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Quando fala o coração (Spellbound – 1945)


Entre as muitas ironias do Oscar, está a de reconhecer filmes menores de grandes diretores e ignorar os seus filmes mais relevantes. “Quando fala o coração” foi indicado a melhor filme e diretor de 1945, um dos dois únicos filmes Hitchcockianos a conseguir essa dobradinha (o outro foi “Rebecca”).  Foi um dos primeiros filmes a tratar de psicologia como tema central, e se tornou um sucesso de público e crítica na época. O ineditismo do tema ajudou a tornar isso possível, assim como a presença da consagrada Ingrid Bergman e do então novo astro Gregory Peck (seu primeiro filme de destaque, “As chaves do reino”, tinha sido lançado um ano antes), e com uma pitada adicional de Salvador Dalí para adoçar a boca dos mais intelectualizados.

Porém, visto hoje, é nítido que este filme é um Hitchcock menor, com muitos altos e baixos, errático mesmo. E que envelheceu mal. A culpa principal disso é justamente do tratamento dado à psicologia. Mesmo para leigos, fica bem clara a superficialidade com que ele é tratado, com conclusões imediatas sendo atingidas, sendo tudo por demais explicado e sem deixar margem à menor dúvida, com resultados milagrosos aparecendo em pouco tempo e apresentando um desempenho nada profissional da parte da personagem da Ingrid Bergman. O filme força a barra o tempo todo nesse sentido, o que torna a trama claudicante, por vezes. Hitchcock depois reconheceu que tratou o filme como “mais uma caçada humana envolta em pseudo-psicanálise”, e essa informalidade em relação ao tema tornou o filme um pouco ridículo em alguns momentos.  Diga-se de passagem, o filme é praticamente irmão-gêmeo de “Marnie”, feito quase 20 anos depois, que apresenta o mesmo tratamento raso do assunto, e com uma trama muito semelhante inclusive nos sintomas apresentados pelos “pacientes” (e, consequentemente, um filme que repete quase que os mesmos defeitos de “Quando fala o coração”).

Felizmente, tinha muita gente de talento envolvida, e com isso o filme tem também seus momentos sublimes, como a cena em que Gregory Peck está com uma navalha na mão, ou na cena final do revólver na frente da tela, que apresenta até 3 frames coloridos, de muito impacto. A fotografia trabalha muito bem com sombras e cria uma ótima ambientação para o filme. E quando Hitchcock volta a ser Hitchcock e se livra das amarras da psicanálise e trata de suspense, o filme avança. Ingrid Bergman e Gregory Peck tem desempenhos apenas corretos, mas felizmente Leo G. Carroll (ator que Hitchcock utilizou diversas vezes) e Michael Chekhov estão muito bem e mostram a importância de se contar com bons atores coadjuvantes. A sequência de sonho, concebida por Salvador Dalí, é o ponto alto do filme, e só existiu por insistência de Hitchcock (contra o julgamento de David O. Selznick, que era contra os gastos envolvidos), apesar de que quem a dirigiu e fez funcionar foi mesmo William Cameron Menzies (que não quis ser creditado), o eterno às da manga de Selznick desde “E o vento levou”.  A trilha sonora de Miklós Rózsa também é muito marcante, com o uso do Theremin acentuando a “loucura” do personagem de Gregory Peck. Rózsa ganhou o único Oscar do filme e também uma certa inimizade tanto com Hitchcock como com Selznick, que brigaram muito com ele e não gostaram do resultado final. Hitchcock inclusive julgou a trilha muito espalhafatosa, roubando um pouco a cena em alguns momentos (o que não deixa de ter razão, apesar de ser muito bela). Nunca mais trabalharam juntos.

Esse é o filme de maior destaque da carreira de Michael Chekhov, que era sobrinho do ilustre dramaturgo Anton Chekhov. Ainda na Rússia se aliou a Stanislavski, que o considerava um gênio. Ao emigrar para os EUA, acrescentou imaginação e movimento uma noção de criatividade subconsciente às táticas de atuação de Stanislavski, conseguindo grande sucesso junto a muitos atores americanos (como pupilos ele teve os próprios Gregory Peck e Ingrid Bergman, além de Gary Cooper, Elia Kazan e Clint Eastwood, entre muitos outros). Muito respeitado no meio, teve pouco destaque no Cinema, porém, e recebeu sua única indicação ao Oscar (como coadjuvante) por esse filme.